Jogando e aprendendo



“Em meu modelo de jogo, um extremo é alguém que deve passar muitos minutos sozinho, em um dos lados do campo, praticamente sem se mexer, sem tocar na bola, sem interferir. Esperando. Como um goleiro. Como acontece com Manu [Neuer], que pode ficar quarenta minutos sem tocar na bola e, de repente, tem de fazer uma intervenção quase milagrosa. Em meus times, um extremo é como um goleiro: um tipo especial”.

Este é Pep Guardiola, ainda como técnico do Bayern, em conversa com Martí Perarnau. O trecho faz parte de “La Metamorfosis”, segundo livro do mesmo autor sobre o treinador catalão. A explicação sobre a exigência de atuação dos atacantes de lado se aplica, também, ao centroavante, seja ele um camisa nove falso ou autêntico. No mesmo capítulo da obra, Perarnau explica que o atacante central das equipes de Guardiola é um “sacrificado”, um jogador que, além das óbvias funções de finalização, desempenha um papel crítico na criação de espaço e na desorganização da defesa rival. Os homens mais ofensivos do futebol de Pep precisam aprender uma maneira de atuar que contraria seus instintos e o desejo de protagonismo.

É neste aspecto que os primeiros passos de Gabriel Jesus no Manchester City surpreendem pelo acerto praticamente instantâneo. Além de ser raro que um jogador de dezenove anos responda tão bem ao ser inserido em um novo ambiente, Gabriel está no começo de um aprendizado que não é simples. Guardiola entende que uma das maiores dificuldades da implantação de sua ideia de jogo é convencer atacantes consagrados a esperar, pacientemente, pela chegada da bola. Neste ponto, Gabriel Jesus tem duas grandes vantagens: a juventude e a disposição para incorporar experiências importantes para sua formação profissional, característica que chamou a atenção de quem conviveu com ele no Palmeiras e na Seleção Brasileira.

Como se deu com o Barcelona e o Bayern dirigidos por Guardiola, o Manchester City é um time que precisa “viajar junto” até o campo de ataque, para que possa se instalar no território do adversário e ameaçar sua área. Essa viagem depende de uma saída de bola organizada e orientada, atribuição do goleiro e dos zagueiros. Os meiocampistas são os responsáveis pela circulação, com sequências de combinações destinadas a desordenar o oponente e abrir corredores de passe. A movimentação do centroavante e a obediência dos extremos – fixados em posições altas e muito abertas – são fundamentais para o sucesso dessa evolução, cujo objetivo final é acioná-los em situações de duelos individuais que precipitem ocasiões de gol.

O sucesso inicial de Gabriel Jesus – três gols e duas assistências em quatro atuações – ainda reforça um senso de posicionamento na grande área que pode proporcionar muitas oportunidades como a do primeiro gol contra o Swansea, no jogo de ontem. Mas é lógico esperar que a Premier League se ajustará à novidade que ele representa e tornará sua vida mais difícil. Guardiola insiste que enxerga Jesus e Sergio Aguero atuando juntos, o que indica a escalação do brasileiro pelo lado. Como extremo, ele terá de se acostumar à solidão, acreditar no processo e, nas palavras de Perarnau, tratar a bola como um bisturi nas mãos de um cirurgião.

DESPERDÍCIO

Qual é a explicação para um tuíte sobre Gabriel Jesus gerar comentários enciumados mencionando Neymar? Estariam as redes antissociais empenhadas em criar um clima “Messi/Ronaldo” em relação a dois jogadores que são companheiros – e complementares – na Seleção Brasileira? Se for isso, que colossal falta do que fazer.

RIO OLÍMPICO

Da série “falar sobre isso era ser antipatriota”: que as reportagens sobre o estado do Parque Olímpico da Barra, que revelaram abandono e sucateamento de diversas instalações, provoquem reflexão e providências. A área deve ser disponibilizada ao aproveitamento público e estimular o desenvolvimento do esporte, como foi prometido.

(publicada em 6/2/2017, no LANCE!)



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