Nossa missão



Faz mais ou menos dois meses que uma tragédia aérea indescritível abriu uma janela na alma do jogo mais apaixonante que existe. Por dias, semanas, talvez, em nenhuma parte do mundo foi possível pensar em futebol sem contemplar a desgraça do voo da Chapecoense e seus significados. Na medida em que o ritual – o autêntico e genuíno, jamais o dissimulado e mentiroso, seja onde for – do choque, da aceitação, do luto, da tristeza e da saudade toma seu caminho pelas artérias em que a bola corre, é natural que a distância temporal seja acompanhada por um desejo, mesmo inconsciente, de deixar as coisas em seu lugar.

Sim, é necessário enfrentar, superar e seguir. Mas não é preciso sufocar os impulsos que transformaram aqueles dias em plataformas para uma recordação: o futebol não tem razão de ser senão pelo encontro de pessoas, algo que oferece um sentido muito mais amplo do que a simples confluência de torcedores a um estádio. É como nos relacionamos com os aspectos do jogo que nos pertencem, aqueles sobre os quais temos direitos inalienáveis e os únicos que podemos controlar. Tais aspectos encontram-se na origem das demonstrações de valores humanos que se multiplicaram, na enxurrada de gestos e palavras que evocaram nossas virtudes mais nobres, enfim, uma maneira de ser simbolizada pela cerimônia que o Atlético Nacional de Medellín realizou na noite em que o jogo contra a Chapecoense aconteceria.

Aquela noite não pode ser um quadro encerrado em uma moldura e exibido para diversas formas de interpretação. Não pode ser um filme que retrata uma narrativa restrita a um momento singular na linha do tempo. Ou, pior, não pode ser uma obra de ficção, uma história que não nos representa. Ao contrário, precisa ser um portão para o que nos une em torno deste esporte, como se pôde ver na decisão da Copa do Brasil, em Porto Alegre, quando a Arena do Grêmio viveu provavelmente o mais belo pré-jogo da história do futebol brasileiro. Não, não se trata de forjar sentimentos, mas de não esquecê-los e não deixar de exercitá-los. É possível?

A pergunta se impõe para a temporada que começa, em forma de reflexões, decisões e atitudes. Não vender a falsa polêmica e a superficialidade, mas a informação relevante e a análise que estimula o conhecimento do jogo. Não comprar a tolice que empobrece, a agitação que corrompe a rivalidade e dissemina a violência, mas o conteúdo que aproxima e esclarece. Não se entregar à ansiedade permanente, à fobia de ser melhor sem saber como ou por quê, ao equívoco de que só a vitória pode justificar o ato de torcer, como se jogadores de futebol tivessem o dever de realizar profecias. Compreender que o jogo está sempre antes do resultado, nunca depois.

O rastro de sucata que o futebol deixa em seu trajeto é produto de sua conversão em uma indústria, um processo inevitável que não precisa ser combatido, mas entendido de outra forma para que seja reciclado. O jogo é propriedade dos futebolistas, das crianças e daqueles que, já crescidos, continuam a enxergá-lo como faziam no início. A montanha de detritos que impede essa visão não fazia o menor sentido há dois meses, quando a consternação estimulou raciocínios e posturas que contrariaram o que predominava no ambiente do esporte. Por que faria sentido agora, no nascer do calendário? Só porque o tempo passou?

MENINO RARO

Gabriel Jesus é o aluno compenetrado, que presta atenção, ouve, entende e aplica antes do término da explicação. O aluno que sabe que errou antes de ser corrigido. Só a dedicação ao aprendizado explica a trajetória de um jovem para quem, como acontece com tantos “futuros astros”, havia um plano desde menino. Essa mesma dedicação explica o fato de o plano estar em andamento, com expectativas de prazo superadas, algo tão raro no futebol.

(publicada em 4/2/2017, no LANCE!)



  • Gustavo Sordi

    Belas palavras, infelizmente o ódio, o senso comum (simplista e sem conteúdo), a discussão vazia, a falta de aprofundamento vem junto com o atual jornalismo e/ou publicidade – que em busca de cliques – está raso, sensacionalista e também simplista/sem conteúdo. Posso dizer que pela prática de frequentar os principais portais da web vejo que é dificílimo existir reportagem e/ou algum tipo de conteúdo bem trabalhado, pensado, aprofundado, sem polêmicas, clickbait, entre outras técnicas de chamar a atenção. Mesmo sabendo disso esse tipo de conteúdo te faz mal, quando menos espera você se pega com raiva de algo ou incomodado com algo (imagine pra quem não pensa sobre isso?), não te agrega conhecimento, não faz um aprofundamento do pensa ou de conteúdo (não serve para nada), além de especulações sensacionalistas (como alguém sabe o “clima” do vestiário ou outras coisas internas de um clube por exemplo). Eu acredito que isso é um dos “n” fatores que podem explicar a atual conjuntura, e que está entre os principais influenciadores. Um ciclo vicioso, para ganhar dinheiro os sites/canais de tv fazem o que dá cliques e acabam por aumentar a desinformação, o ódio, a discussão sem base e superficial, quanto mais superficial mais sucesso faz e mais influencia um senso comum limitadíssimo.

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