No LANCE! de hoje 



O OLHO DO TEMPO

Minutos depois que a tecnologia colaborou para confirmar o título que encerra o debate sobre o melhor tenista da história, a insistência no atraso mostrou que o futebol ainda precisa de ajuda mesmo na liga que abriga as principais estrelas do jogo. O domingo apontou, com certa dose de crueldade, que o esporte precisa acompanhar a modernidade para ser levado a sério e valorizado como merece, aspectos diretamente ligados à confiança do público no resultado de partidas e competições. O tênis usufrui do replay de vídeo para dirimir pontos duvidosos; o futebol, até em campeonatos de elite, ainda não é capaz de determinar se um gol de fato aconteceu.

Enquanto Roger Federer e Rafael Nadal ofereciam, em Melbourne, mais uma decisão para ser emoldurada e conservada pelo patrimônio esportivo da humanidade, Betis e Barcelona se enfrentavam pelo Campeonato Espanhol, em Sevilha. No nono game do quinto set, transcorridas três horas e trinta e oito minutos de exibição, Federer acreditou que tinha tocado o troféu com uma direita cruzada que acariciou a linha. Nadal aumentou o suspense ao solicitar o veredicto do “Olho do Falcão”, que autorizou a celebração do gênio suíço (35 anos, 18 títulos de Grand Slam) com a imagem indubitável. Não há questionamentos cabíveis sobre a final do Aberto da Austrália, só aplausos.

A cerimônia de coroação de Federer estava em andamento quando um momento embaraçoso se produziu na capital da Andaluzia. Um cruzamento de Aleix Vidal foi desviado na direção do gol do Betis, e apesar de a bola ter ultrapassado a linha por um espaço facilmente preenchido por uma raquete de tênis, a arbitragem não assinalou o empate do Barcelona (minutos mais tarde, Suárez determinaria o 1 x 1 final). Foi um desses lances tão evidentes, tão escandalosos quando expostos pela primeira repetição, que o apelo à tecnologia parece desnecessário, mas essa é sua função: proteger o jogo, independentemente das circunstâncias.

Neste caso, a responsabilidade é exclusiva da Liga Espanhola, que até hoje não instalou em seus estádios o equipamento que aplica a tecnologia na linha do gol. A medida, básica na defesa da lisura do resultado, está em uso nos campeonatos de futebol da Inglaterra, Alemanha, Itália e França. O argumento é o alto custo financeiro, uma explicação no mínimo curiosa em um ambiente que desfruta de um contrato de televisão no valor de 2,65 bilhões de euros. A desvalorização de imagem causada por um gol não visto como o de ontem, enfatizada pela comparação imediata com ligas em que esse constrangimento foi abolido, deveria ser motivo de preocupação e tomada de providências.

No que diz respeito ao nível técnico do futebol apresentado e à capacidade de suas principais equipes, o Campeonato Espanhol é provavelmente o melhor da Europa. Mas leva um banho da Premier League inglesa (que vale mais do que o dobro) em organização, embalagem e investimento no próprio produto. Considerando todos os aspectos, os ingleses têm o campeonato mais interessante e estão em posição de atrair os astros de maior brilho – os melhores treinadores já estão na ilha – nos próximos anos. Os espanhóis pintam gramados e multam clubes que permitem que a televisão mostre áreas desocupadas em seus estádios, mas sua liga é a única das grandes europeias em que um gol não é gol.

A propósito: a Fifa cedeu à CBF os equipamentos usados na Copa do Mundo de 2014. Além do custo de manutenção, o fato de só poderem ser instalados nas doze sedes do Mundial foi apresentado como motivo para que gols fantasmas sigam acontecendo no Campeonato Brasileiro, ao menos até que o árbitro assistente de vídeo seja implantado por aqui. Em um campeonato disputado em dezenas de estádios, problema agravado por venda de mandos, o apito eletrônico é uma solução menos complexa, mas tudo depende da iniciativa de oferecer ao país – e ao mundo – uma competição confiável.

(publicada em 30/1/2017, no LANCE!)



  • J.H

    André, Já podemos imaginar como essa figura de “assistente de vídeo” será encarada aqui no Brasil, onde a desconfiança paira sobre tudo e sobre todos depois da divisão provocada pela última disputa eleitoral a nível nacional similar a um Fla x Flu. Para os árbitros acredito que suavizará a pressão, mas sobre teorias da conspiração, essas não terão fim.

  • Edouard

    Uma “crônica”, na acepção de manual de redação! Coisa rara hoje em dia.
    Ótimo texto. Um abraço.

    • André Kfouri

      Muito obrigado. Um abraço.

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