No LANCE! de hoje 



O “MODELO DA GRANADA”

Você já viu várias vezes a cena da granada em filmes de guerra. Escondido, o soldado identifica o alvo ao alcance, retira o pino do explosivo e o arremessa na direção do inimigo, enquanto tapa os ouvidos ou corre para se proteger dos estilhaços. É um momento clássico, obrigatório até nas comédias que satirizam batalhas, em que a diferença principal em relação aos épicos costuma ser o fato de o soldado estar gargalhando antes da explosão. Este último exemplo se transformou em um modelo de atuação disseminado nos dias atuais, época em que qualquer pessoa, independentemente da posição que ocupa, se manifesta da maneira que bem entende, sem considerar ou se preocupar com as repercussões.

Tirar o pino, lançar a bomba e rir. A Fifa está se especializando nisso. A ideia da Copa do Mundo com quarenta e oito seleções é uma atrocidade esportiva da mais alta ordem, um projeto bizarro, coerente com as práticas da entidade de Joseph Blatter e Jérôme Valcke, do propinoduto de marketing e direitos de transmissão exposto pelas autoridades do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que conduziu tantos donos do futebol a diferentes modalidades de cárcere. Ocorre, claro, que esta é a Fifa de Gianni Infantino, o homem dos sorteios da Uefa, responsável por administrar o que restou após as operações do FBI. E eis que o organograma de distribuição de dinheiro e influência política compõe a estrutura desse novo Mundial de seleções, pois cada dia traz um entardecer e sempre haverá copos com gelo à espera de doses de uísque.

Infantino também brindou aos novos tempos com Marco Van Basten, que até há alguns dias fazia parte da história do futebol como um atacante magnífico, uma das estrelas do revolucionário Milan de Arrigo Sacchi, autor de um gol inacreditável pela Holanda na final da Euro 1988. No cargo de “executivo-chefe de desenvolvimento técnico” da Fifa, Van Basten é um proponente – isso é realmente difícil de tratar seriamente – da abolição da regra do impedimento. De alguma forma, um ex-jogador de tamanha estatura parece, de fato, crer que essa medida tresloucada levará a “mais ocasiões de gol”. É estarrecedor que, ao longo de sua esplêndida carreira (infelizmente abreviada por um tornozelo lesionado), sob as ordens de visionários como Sacchi e Rinus Michels, Van Basten tenha perdido o ponto de forma tão espetacular.

Embora seja complexa em sua aplicação, especialmente para a arbitragem humana, a lei do impedimento é uma garantia de inteligência no jogo de futebol. É necessária a implantação de uma visão, com o devido ensaio em treinamento, para usar a regra nos aspectos defensivo – neutralização de movimentos do adversário – e ofensivo – criação de maneiras de contornar as restrições de posicionamento. Ao longo do desenvolvimento do jogo, tanto a estrutura das equipes quanto a forma como atacam e defendem sofreram impacto direto da lei do impedimento e dos ajustes que foram feitos em seus princípios. O inesquecível Milan no qual Van Basten brilhou só foi capaz de reduzir a área do campo em que efetivamente se jogava, uma das características que o definiam, porque, em sua época, o impedimento era determinado com noções diferentes das de hoje.

A Copa do Mundo e as regras do futebol são temas importantes, que deveriam ser abordados com mais respeito pelo jogo e pela quantidade de pessoas que se importam com ele em nosso planeta. Em relação a tais assuntos, o “modelo da granada” é indecente, deprimente até. Já no que toca à chancela da Fifa para títulos mundiais de clubes, por favor, valorize seu tempo. Quem acompanha futebol deveria ter ciência da importância de cada conquista através das eras e o que elas representam, independentemente da nomenclatura ou das assinaturas de políticos do esporte como Gianni Infantino e similares. Neste caso, a melhor opção é acompanhar outro tipo de filme.

(publicada em 28/1/2017, no LANCE!)



  • J.H

    Aqui no Brasil a “nossa Fifa” recentemente tirou pinos dos aparelhos de fax e soltou 9 artefatos para um lado e 8 para o litoral, e todos falharam. Não deu repercussão nenhuma. Ou seja ninguém “ligou” para o que ela disse ou fez. Aliás aplaudiram (alguns?). Advogam que a Fifa Suíça imite o ato para aplaudirem também ?Com certeza. Game over!

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