No LANCE! de hoje 



TOSTÃO, O RARO

Em uma noite de junho de 1997, durante o Torneio da França, Tostão jantava em um restaurante parisiense com os jornalistas José Trajano e Toninho Neves. Um bom número de colegas estrangeiros estava na cidade cobrindo o quadrangular entre França, Itália, Brasil e Inglaterra, o que provocava frequentes olhares de admiração lançados ao então comentarista da TV Bandeirantes, embora ele suspeitasse que ningúem fosse capaz de reconhecê-lo.

Naquela noite, Tostão estava convicto de que os homens na mesa ao lado não faziam ideia de sua presença. Ele é quem havia notado Kevin Keegan comendo com jornalistas ingleses. Keegan tinha deixado o posto de técnico do Newcastle meses antes, de modo que suas feições eram facilmente identificáveis. Repórteres brasileiros em início de carreira chegaram ao restaurante e, testados, acertaram seu nome de primeira. Tostão, sempre lecionando simplicidade, disse que não se lembrava de tê-lo enfrentado.

A impressão era de que o mesmo tipo de conversa estava em andamento na mesa inglesa. Os olhares eram discretos, mas eles permaneciam sentados, pediam um café após o outro, como se estivessem aguardando o momento apropriado para dizer alguma coisa ou se aproximar. Tostão seguia dispensando a possibilidade de Keegan e seus acompanhantes terem se percebido jantando ao lado de um dos grandes jogadores da história, ocasião que não pareciam dispostos a desperdiçar. Em pouco tempo, ficou evidente que um encontro estava prestes a acontecer.

Fez-se silêncio quando Tostão se levantou, e Keegan se dirigiu diretamente a ele, sorrindo e com a mão estendida. Se celulares inteligentes existissem à época, haveria um banquete de fotografias solicitadas por amantes do futebol a um de seus melhores intérpretes em todos os tempos. Após poucas palavras e muita simpatia de lado a lado, cada grupo seguiu seu caminho pelas ruas de Montparnasse, com versões da mesma história para contar. A julgar pelas expressões de Keegan e de quem estava com ele, certamente foi um caso relatado muitas vezes desde então.

Encontrar Tostão é um privilégio ainda maior do que tê-lo visto jogar ou ler o que ele escreve com maestria sobre o jogo. Os modestos autênticos, como ele, preferem a companhia de poucos, a presença do que os inspira, as longas conversas com as próprias ideias. Naquela noite, há quase vinte anos, Kevin Keegan e seus amigos foram presenteados pela sorte. O mesmo pode ter acontecido com quem o viu ontem, dia em que completou setenta anos, em algum lugar deste mundo em que há tão pouca gente como ele.

(publicada em 26/1/2017, no LANCE!)



  • J.H

    Tostão, além de jogador, tem se revelado um jornalista de primeira linha, principalmente porque difere da maioria que faz um jornalismo meramente reativo. E isso hoje em dia, faz a diferença. Basta ver as reações de muitos hoje, quando a Fifa se reporta aos títulos de campeões mundiais em torneios organizados por ela. Chega a dar pena dos adeptos da “sofrência”. Sofrência é um neologismo da língua portuguesa, formado a partir da junção das palavras “sofrimento” e “carência”, e possui um significado similar ao da expressão popular “dor de cotovelo”.

  • J.H

    O Jornalismo Esportivo lida com alto grau de risco de parcialidade, pois tanto jornalistas quanto leitores têm preferências por times ou atletas. Andar entre a linha da admiração ou repúdio pelo que diz ou escreve revela a sua sabedoria.
    André, quero parabenizá-lo por ter escolhido ser um legítimo “CRONISTA ESPORTIVO” com capacidade de dar tom ficcional e romântico a um fato como poucos.! Nem sempre comento, mas leio com prazer.Obrigado!

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