No LANCE! de hoje 



VIVA, NETO

A mensagem chegou em algum momento durante a manhã daquela fatídica terça-feira: “Neto está vivo”. Eram horas em que muitas famílias se viam obrigadas a contemplar o pior, em que todas as informações que chegavam da Colômbia aumentavam a magnitude da tragédia, em que vidas se perdiam e outras se modificavam para sempre. Mas a mensagem significava algo quase inimaginável diante de tanto horror: o número de sobreviventes estava errado, um nome deveria ser adicionado à lista que continha, até aquele momento, apenas cinco pessoas. Neto.

A palavra milagre, tantas vezes empregada como hipérbole, é obrigatória quando se trata de quem sobrevive à queda de um avião. No caso de Neto, talvez seja a única que caracteriza apropriadamente o que lhe aconteceu. As horas sob pedaços da fuselagem do aparelho, resistindo ao frio e à chuva com fraturas que rasgaram seu tórax e expuseram seus órgãos. A pequena placa de titânio colocada em seu corpo para fixar uma hérnia cervical, que pode ter impedido que o zagueiro da Chapecoense ficasse paraplégico no desastre. Neto provavelmente suportou porque é jovem e atleta, mas é inútil tentar explicar milagres.

Ontem, pouco mais de um mês depois de ser encontrado porque um policial colombiano o ouviu gemer de dor, mais de duas horas depois que a operação de resgate já tinha terminado, Neto retornou ao vestiário da Arena Condá. De muletas, por causa de uma lesão no joelho direito, e com curativos protegendo ferimentos, ele se sentou à frente do armário que exibe seu nome e pôde conversar com alguns de seus novos companheiros, os jogadores das categorias de base da Chapecoense que passam a formar o time que desapareceu em Medellín. O dia da reapresentação evidentemente não seria uma ocasião corriqueira.

Há uma foto publicada no perfil do clube catarinense no Instagram em que quatro jovens jogadores olham fixamente para Neto. Cenas semelhantes têm sido frequentes, com pessoas se aproximando, emocionadas, para lhe parabenizar por estar vivo. A jornada de sua recuperação terá de ensiná-lo a lidar com a sensação de ser, como ele mesmo disse, aquele que “não deveria estar ali”. Hoje, com o semblante obviamente abatido e cerca de dez quilos mais frágil, ele não se parece com um jogador de futebol. Mas essa é sua aparência temporária, que os próximos cento e vinte dias – prazo estimado para que se recomponha fisicamente – corrigirão.

Após tudo o que passou, e o que terá por diante, Neto não merece carregar a carga de ser convertido em um símbolo. Deveríamos deixá-lo em paz, para que possa trabalhar tantos temas internos e enfrentar as armadilhas que surgirão nesse longo caminho. Mas o futebol, ambiente em que ele se sente cômodo, acontece diante dos nossos olhos e é natural que Neto – assim como Alan Ruschel – de certa forma represente o processo pelo qual a Chapecoense terá de passar. Curar-se, pôr-se em forma e se adaptar a um novo tipo de normalidade que provavelmente jamais substituirá o que era normal.

Neto falou com notável clareza sobre a visão que tem do momento de voltar a jogar. Ele já antecipa a dificuldade de controlar as emoções inevitáveis ao pisar o gramado pela primeira vez, no dia que seus passos adquirirão outro significado. A sensação de ser quem não deveria estar ali será substituída pela de quem finalmente chegou. É um caminho pavimentado por vários retornos, desde os destroços do avião que não pousou até o vestiário da Arena Condá, em uma noite de futebol. Que Neto possa ser exatamente o mesmo jogador que era, mesmo que seja tão diferente.

SURPRESA?

O abandono do Maracanã simboliza o que se temia no país da Copa do Mundo, quando apontar esses riscos era equivalente a ser “antipatriota”. O roteiro se confirma em todos os seus revoltantes detalhes, mas agora o estrago já está feito. E quem riu continua rindo.

(publicada em 7/1/2017, no LANCE!)



  • Alisson Sbrana

    Lindo texto.

  • nilton

    E pensar que o Maracanã não estava na lista dos Elefantes Brancos.

  • J.H

    E, vai ser entregue descaradamente a um clube de futebol graciosamente, depois de construído e reformado com dinheiro do povo. Se a imprensa apoiar isso, me sinto no direito de chama-la (parte) de hipócrita.

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