No LANCE! de hoje 



PLANETA TEVEZ

O último negócio da China no futebol converterá Carlos Tevez não só no jogador mais bem pago em todos os tempos, mas no futebolista que será remunerado quase com a soma dos salários atuais de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Embora desafiem nossa capacidade de acreditar no que parece inverossímil, os números divulgados em tweets nos últimos dias estão corretos: o contrato de duas temporadas no Shanghai Shenhua, no valor de 80 milhões de dólares, pagará cerca de 110 mil dólares por dia a Tevez. É algo que provavelmente eleva a temperatura corporal até dos árabes que têm adquirido clubes de futebol como se fossem picolés.

A enormidade da oferta aceita pelo atacante argentino (que completará 33 anos em fevereiro) encerra qualquer debate sobre o valor do trabalho, as cifras que circulam pelos corredores do mundo do futebol ou mesmo a decisão de atuar em um ambiente que não possui relevância esportiva. Muitos jogadores já disseram sim à Super Liga chinesa, seduzidos por contratos que transcendem a realidade. Para eles, a experiência é semelhante a uma licença temporária, inacreditavelmente recompensada, do futebol competitivo. Tevez levou a conversa a uma nova dimensão: é mais ou menos como se ele fosse viver e jogar em outro planeta.

O diário argentino La Nación contou a história de mais um adeus do Apache ao Boca Juniors. Alguns detalhes são muito parecidos com os que motivaram a primeira despedida, em 2004, quando veio para o Brasil em busca de paz. A idolatria que restringia sua vida em Buenos Aires, as neuroses do futebol argentino, os problemas de convivência gerados por sua personalidade e suas exigências. Tevez fez 38 atuações pelo Corinthians e certa manhã não apareceu para treinar. Tinha viajado para a Inglaterra, onde vestiu as camisas do West Ham e dos dois rivais de Manchester, durante sete temporadas. As 113 aparições pelo City são o recorde de sua carreira.

Diz o La Nación que, após dois anos esplêndidos na Juventus, o clube de Turim lhe mostrou um papel em branco para convencê-lo a permanecer. Era apenas uma questão de anotar o número que lhe viesse à cabeça. Mas Tevez já estava decidido a retornar à Bombonera, onde 40 mil fãs o receberam em julho do ano passado e ouviram a promessa do ídolo que voltava para se aposentar no clube de seu coração. Dezessete meses, 34 jogos e 14 gols mais tarde, Tevez se despede do Boca em meio a rusgas com companheiros, tentativas de determinar os rumos do clube e a explicação de que não jogar a Libertadores em 2017 lhe ceifou a motivação.

Ainda segundo o jornal argentino, a fotografia que circulou na última terça-feira, em que Tevez sorri com a camisa de seu novo clube, foi feita antes de seu último jogo pelo Boca Juniors. No dia 18 passado, o Boca venceu o Colón por 4 x 1 e a torcida na Bombonera pediu que Carlitos não fosse embora. Não sabia sobre a foto tirada em uma sala do hotel Faena, ou sobre as conversas ali mantidas, ou sobre os acertos sacramentados. Tevez foi ao Uruguai para seu casamento, teve sua casa em San Isidro invadida por assaltantes e partiu para a lua de mel em Cancún, acompanhado de vinte e cinco parentes. Os chineses o aguardam.

DESAPEGO

A trajetória de Tevez e suas constantes mudanças de endereço evocam a famosa cena do restaurante em “Fogo Contra Fogo”, drama de ação de 1995 dirigido por Michael Mann, com Al Pacino, Robert De Niro e Val Kilmer. O tenente Vincent Hanna (Pacino) aborda o ladrão de bancos Neil McCauley (De Niro) em uma via expressa de Los Angeles e o convida para um café. No restaurante, o policial pergunta se McCauley nunca quis ter uma vida normal. A resposta: “Um cara me disse uma vez: não se apegue a nada que você não possa abandonar em trinta segundos”.

OUTRA NOTA PESSOAL

Uma vez mais, um agradecimento pela leitura durante este ano que se encerra. Um excelente 2017 a você, com saúde, trabalho e felicidades.

(publicada em 31/12/2016, no LANCE!)



  • Joao Henrique Levada

    Dézinho, obrigado por mais um ano de bom jornalismo esportivo.

    Feliz 2017, meu caro!
    Que não falte saúde, nem serenidade.

    Um grande abraço.

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