No LANCE! de hoje



EM FRENTE

Foi uma dessas cenas que acionam a torneira que existe atrás de nossos olhos, e inflam a bola de borracha que vive em nossas gargantas: Alan Ruschel levantou-se da cadeira e entrou, com as próprias forças, no carro que o aguardava na porta do hospital em Chapecó. Antes, envolveu-se em um longo abraço com Hyoran, o companheiro que também sobreviveu ao desastre de Medellín, mas porque não entrou no avião. Dezoito dias após a tragédia, com o corpo marcado pelos ferimentos físicos e a mente pelos psicológicos, Ruschel foi para a casa sob o aplauso de quem estava presente e a emoção de quem viu a imagem pela televisão.

Uma longa jornada de recuperação está diante dos passageiros que podem contar suas versões do acidente. Além das lesões das quais todos, tomara, se curarão, há um exercício de compreensão tão complicado quanto o cálculo do azar de sofrer uma tragédia aérea e da sorte de sair dela com vida. A alta médica é uma das muitas vitórias para quem já teve de superar o inimaginável. Outras virão com o tempo, certamente acompanhadas de uma forma diferente de olhar a vida, os problemas comuns e aqueles decorrentes de uma experiência tão transformadora. O acordo com os próprios sentimentos a respeito de tudo o que aconteceu é um dos objetivos.

Sir Bobby Charlton, o lendário ex-jogador inglês, demorou quase cinquenta anos para falar publicamente de maneira elaborada sobre o desastre do Manchester United, que matou vinte e três pessoas – entre elas, oito jogadores do clube – em 1958, em Munique. Ele foi um dos vinte e um sobreviventes da tragédia, e por anos teve de lidar com uma pergunta. “Eu pensei, ‘por que eu?’. Por que estou aqui com pouco mais do que um corte na cabeça, e todos esses meus amigos morreram?”, disse Charlton, durante uma entrevista na televisão, em 2007. “Não era justo, por que haveria de ser eu? Demorou muito tempo para que me sentisse bem”, explicou.

Charlton encontrou uma das respostas na configuração dos assentos do avião, que tinha cadeiras viradas para a frente e outras para trás. Todos os que sobreviveram estavam sentados de costas para a cabine. Essa questão o ajudou a se entender com a sorte por estar vivo, provavelmente a única afirmação que pode ser feita diante da enormidade da tragédia. Na conversa em 2007, ele revelou que por muitos anos não se sentiu confortável para falar sobre o acidente, por receio de ofender as famílias e amigos dos que morreram. Anteontem, em sua primeira entrevista, ficou evidente o sofrimento de Alan Ruschel ao verbalizar um pouco do que guarda dentro de si.

Dez anos depois do acidente na pista do aeroporto em Munique, Bobby Charlton e o Manchester United conquistaram a Copa da Europa, celebrada como um tributo aos jogadores que perderam a vida na tragédia. Respeitadas todas as evidentes distâncias, o caminho da Chapecoense de volta ao estágio em que se encontrava como clube e time de futebol é possível e está nas mãos das pessoas que se dedicarem a pavimentá-lo. Com resiliência, humanidade e profissionalismo. Ao se erguer da cadeira de rodas e dar alguns poucos passos até o carro, Alan Ruschel nos mostrou que é preciso seguir em frente.

MUNDIAL

Na final do Mundial de Clubes da Fifa, Cristiano Ronaldo aumentou sua coleção de gols importantes, títulos coletivos e prêmios individuais, encerrando uma temporada gloriosa. Mas o principal jogador do Real Madrid na decisão contra o Kashima Antlers foi Karim Benzema, o francês capaz de ser decisivo como finalizador de jogadas e também como assistente de seus companheiros.

INTERPLANETÁRIO

Barcelona e Español faziam um jogo sem maiores atrações até o segundo gol dos campeões espanhóis. O que Messi consegue fazer no menor dos espaços é algo inacreditável e incompreensível. É como se a bola fizesse parte de seu corpo. Há também um aparente terror dos adversários de tomar um drible humilhante, por isso estão sempre atrasados.

(publicada em 19/12/2016, no LANCE!)



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