No LANCE! de hoje 



A QUESTÃO DINIZ

É um fenômeno que se repete desde a conclusão do último Campeonato Paulista; a cada vez que um clube do estado se vê em posição de contratar um técnico, o nome de Fernando Diniz aparece entre os “especulados”, sempre acompanhado de uma observação que o torna uma espécie de asterisco na lista de possibilidades. É uma etiqueta confeccionada por rumores e “histórias internas” sobre seu comportamento no dia a dia, uma imagem pública que o precede e, obviamente, o prejudica: Diniz tem uma personalidade difícil que inviabilizaria sua permanência em um grande clube.

No gigante ecossistema do futebol, treinadores têm o trabalho mais exigente, mais desgastante, e mais incompreendido. Dirigir grupos heterogêneos em todos os aspectos, em que cada pessoa precisa ser decodificada, compreendida, estimulada e orientada com o objetivo final de maximizar seu desempenho é uma tarefa de extrema complexidade. Treinar essas pessoas todos os dias, convencê-las a fazer o que é necessário, evitar aborrecê-las com condutas repetitivas ou escolhas inevitáveis são aspectos da rotina de técnicos que facilmente escapam à compreensão pública.

Somada ao nível de responsabilidade que acompanha o cargo, e ao caráter interruptor de trabalhos que predomina nos clubes brasileiros, essa realidade faz com que a posição de técnico de futebol requeira um conjunto de habilidades que cobra um alto preço. O pagamento é feito em forma de preparação, aperfeiçoamento, ensinamentos gerados pelo acúmulo de experiências e a lapidação de uma maneira de ser que possibilite as melhores chances de sucesso em uma profissão que premia poucos candidatos. Fernando Diniz está pagando esse preço, enquanto aguarda a abertura das portas que podem levá-lo ao próximo nível.

Se a questão principal for o temperamento, será impossível encontrar um treinador com o perfil ideal. O balanço de virtudes e defeitos é o prisma sob o qual todos somos julgados, em qualquer linha de atividade. A ideia de que há técnicos que não servem para determinados clubes é tão falsa quanto a noção de que há profissionais à prova das fricções e desgastes inerentes ao cargo que ocupam. No que diz respeito a Fernando Diniz, o fato de ter conduzido o Audax à decisão do campeonato estadual do ano passado deveria ser um fator de interesse de clubes grandes em seu nome. O tipo de futebol que o Audax jogou deveria gerar curiosidade sobre seu método.

O problema aqui não é Fernando Diniz, mas a forma como dirigentes avaliam técnicos e o que esperam deles. É fato que um proponente de ideias novas precisará de mais suporte, e por mais tempo, do que alguém que pretenda apenas fazer o carrossel seguir girando da mesma maneira. A disseminação da “versão oficial” sobre o comportamento de Diniz é, na verdade, o escudo usado por cartolas para não ter de lidar com a responsabilidade de dizer “esse é o futebol que queremos, e por ele abraçaremos os riscos”. Não é Diniz que não está pronto, é quem toma decisões em clubes que mereciam ser dirigidos por gente mais preparada.

FALTA UM

O Santos dará sequência ao trabalho exemplar de Dorival Júnior, provavelmente o melhor treinador da temporada de 2016. O Palmeiras contratou Eduardo Baptista, um técnico atualizado. O São Paulo apostou em Rogério Ceni, um ídolo com conceitos modernos, cercado por uma equipe competente. O Flamengo prossegue com o promissor Zé Ricardo, assim como o Botafogo faz em relação a Jair Ventura. O Fluminense trouxe Abel Braga de volta, o Atlético Mineiro acertou com Roger Machado, o Cruzeiro manteve Mano Menezes, o Vasco confiou em Cristóvão Borges. O Grêmio negocia a renovação do contrato de Renato Portaluppi, o Atlético Paranaense continua nas mãos de Paulo Autuori, o Internacional chamou Antonio Carlos para retornar à Série A e a Chapecoense escolheu Vagner Mancini para se reconstruir. E o Corinthians, o que fará?

(publicada em 17/12/2016, no LANCE!)



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