No LANCE! de hoje



IDEIAS

Duas horas depois de ser formalmente apresentado como técnico do São Paulo, Rogério Ceni conversava com jornalistas e amigos em uma sala no centro de treinamentos do clube. Seu telefone vibrava avisando a chegada de mensagens, até que uma delas o fez pedir licença para ler: “Acabei de terminar três horas de estudo de português. Te vi na televisão, parecendo um grande técnico. Vamos fazer isso!”. O remetente era Michael Beale, um dos assistentes estrangeiros contratados para a nova comissão técnica.

A visão de Rogério para seu primeiro trabalho como treinador contém todas as ideias corretas e, não apenas julgando pelo que disse em entrevistas, nenhuma ideia errada. As pessoas que têm dividido o dia a dia com ele, nas reuniões de planejamento da pré-temporada e nas conversas sobre possíveis contratações estão, sem exceção, animadas com o que veem e ouvem. Ceni demonstra o entusiasmo de quem sabe estar diante do maior desafio profissional, mas também a inteligência para se cercar de conhecimento e experiência.

Beale, o treinador inglês com currículo em categorias de base e especialização em métodos de treinamento, talvez seja a figura chave do experimento. É ele que oferecerá o lastro de capacitação que Ceni ainda não possui para trabalhar com os jogadores diariamente no campo de treinamento, local onde times de futebol nascem, crescem e aprendem a atingir seu máximo. O arquivo e a criatividade de Beale para treinar os jogadores do São Paulo complementarão a liderança de Rogério para comandá-los. É uma relação em que todos ganham.

É difícil falar em modelo de jogo, pois muitas circunstâncias estão envolvidas, principalmente as características dos futebolistas que formarão o elenco. Mas em relação à personalidade, o São Paulo do ano que vem promete ser um time de posse e orientação ofensiva, exibindo conceitos notáveis nas equipes que têm esse perfil fora do Brasil: movimentos construídos a partir da defesa, linha defensiva próxima ao meio de campo, circulação para desorientar o oponente, pressão alta. Também é cedo para falar em sistema, mas Ceni tem se mostrado interessado no 3-4-3 utilizado pelo time sub-20 do São Paulo.

Para atuar dessa maneira, não será preciso apenas treinar muito e certo. O bom funcionamento coletivo dependerá do desenvolvimento de jogadores para as funções que devem ser realizadas em campo, de acordo com planos feitos com base nos defeitos e virtudes dos rivais. Muitas dessas funções podem ser estranhas a futebolistas acostumados com o “pacote básico” de cada posição, situação que conferirá ao treinamento um caráter de aprendizado e busca de qualidades pessoais. Desnecessário mencionar que são processos que exigem tempo.

O goleiro, por exemplo, deverá ocupar uma posição adiantada por causa do iminente risco de contragolpe que acompanha a defesa alta. Não bastará estar confortável com a distância do gol e o jogo com os pés, será necessário ter o desejo de participar, em diversos momentos, como um homem de linha. A partir da pré-temporada, os goleiros são-paulinos passarão boa parte dos treinamentos junto com o restante do time, de forma a adquirir não só as habilidades técnicas, mas a postura exigida pelo novo papel.

Ceni tem exata noção de que a inovação e a introdução de métodos e comportamentos geram sofrimento. A realização daquilo que ele enxerga para seu time dependerá do convencimento de jogadores, dirigentes, torcedores, analistas. Sua aprendizagem com Juan Carlos Osório foi interrompida exatamente pelas dificuldades que encerraram o período do treinador colombiano no São Paulo. É improvável que o mesmo ocorra com um ícone do clube, mas Rogério está determinado a sustentar suas convicções.

Como diz Juan Manuel Lillo, membro da comissão técnica de Jorge Sampaoli que Ceni conheceu quando esteve no Sevilla: “Não existem bons e maus treinadores. Existem treinadores que têm coragem e os que não têm”.

(publicada em 10/12/2016, no LANCE!)



  • nilton

    “É ele que oferecerá o lastro de capacitação que Ceni ainda não possui
    para trabalhar com os jogadores diariamente no campo de treinamento,
    local onde times de futebol nascem, crescem e aprendem a atingir seu
    máximo.”
    Lendo esta parte do post lembrei um comentário que o Tostão fez na coluna dele um tempo atrás falando que durante os treinamentos, daquele Cruzeiro que entrou para historia, o treinador ficava dando entrevista na beira do campo quando os craques decidiam quais seriam as melhores jogadas. Ai veio uma duvida será que os treinadores evoluíram tanto assim ou os jogadores regrediram tanto assim?????

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