No LANCE! de hoje



O CARTOLA FANTASMA

Antes de ser uma tragédia nacional, a queda do voo da Chapecoense é uma tragédia do futebol brasileiro. O assunto praticamente domina o noticiário desde as primeiras horas da última terça-feira, unindo Medellín a Chapecó e a todos os outros lugares alcançados pelas ramificações desse evento horroroso, que alterou a vida de inúmeras pessoas e paralisou o futebol no Brasil. Diante de um cenário tão dramático, e com tantas implicações, seria absolutamente natural e esperado que a face do comando do esporte no país estivesse visível, acessível, disponível. Mesmo que fosse unicamente pelo aspecto humano. Quantas vezes, porém, viu-se o rosto de Marco Polo Del Nero nos últimos dias?

Nenhuma. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol limitou-se a uma nota oficial divulgada na manhã do dia 29, por intermédio da qual manifestou seu “sentimento de solidariedade a todas as pessoas atingidas pelo acidente”. Del Nero não apenas se impossibilitou de cumprir o dever de ir à Colômbia, por causa de suas peripécias com a Justiça dos Estados Unidos, como se furtou a se fazer presente em Chapecó, onde estaria tão a salvo das algemas do FBI quanto em sua sala na Barra da Tijuca. Mais do que um cartola que prefere, digamos, operar abaixo do radar, o Marco Polo que não viaja é um ser das sombras. É mais, bem mais, do que um traço de timidez.

A obrigação do presidente da associação de futebol de um país atingido por uma hecatombe como essa, um desastre que provoca o desaparecimento de um time a caminho da decisão de um torneio internacional, é estar no local dos fatos imediatamente. E lá se fazer ver, trabalhando e tomando decisões no sentido de auxiliar o clube e as pessoas envolvidas. Marco Polo Del Nero deveria ter tomado o avião da CBF e ido a Medellín na terça-feira, para só retornar com os corpos de todos os brasileiros que morreram no acidente. Como se sabe, viagens internacionais o aterrorizam, especialmente quando se trata de destinos como a Colômbia, de conhecidos acordos de extradição com os EUA.

Em resumo: Del Nero não pode representar o futebol brasileiro em assuntos institucionais junto à Fifa ou mesmo à Conmebol; não pode liderar a delegação da Seleção Brasileira em compromissos no exterior; e diante de uma desgraça como a desta semana, também não pode exercer tarefas morais do cargo que ocupa no comando da CBF. Ele não deu nem mesmo uma entrevista. Em todas essas situações é necessário enviar um substituto para se fazer de presidente, com a única atribuição de manter a bateria do celular carregada. O que impõe outra pergunta: além de constranger o futebol no Brasil, Del Nero serve para quê?

A resposta em um exemplo: para ligar para o presidente de um clube destruído, no dia seguinte à catástrofe, e tentar convencê-lo a levar seu time a campo na última rodada do Campeonato Brasileiro. É o equivalente a dizer a uma funcionária que acaba de se tornar viúva, antes mesmo do enterro do marido, que ela não pode faltar a uma reunião marcada. No exato momento em que o mundo do futebol pensava em formas de apoiar a Chapecoense, o presidente da CBF pensava em usar a Chapecoense. Uma atrocidade que vai além da insensibilidade e do desrespeito ao luto, atitude própria de quem, há décadas, está empenhado em se servir do futebol, mas jamais servi-lo.

Marco Polo Del Nero pretende ir ao velório das vítimas da tragédia, que será realizado neste sábado, na Arena Condá. Um dia e um acontecimento absolutamente distintos de tudo que o futebol brasileiro conhece. Um estádio será preenchido por uma quantidade imensurável de dor, que deve ser confortada por bondade equivalente. Estar presente é uma obrigação que Del Nero pode cumprir, mas será por pura formalidade. Se tivesse a intenção de prestar solidariedade como dirigente, ou apenas como pessoa próxima dos que vivem esse momento terrível, seus últimos dias teriam sido diferentes.

(publicada em 3/12/2016, no LANCE!)



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