No LANCE! de hoje



A ASCENSÃO DE JESUS

O título acima não é uma citação bíblica, muito menos algo que mereça ser mencionado como exemplo de uso desrespeitoso de conteúdo religioso, mesmo em uma época em que todo e qualquer tipo de conteúdo esteja sob risco de ser interpretado como ofensivo por quem vive permanentemente disposto a se sentir ofendido. Esse comportamento patológico é um fato inegável de nossos tempos, assim como o título desta coluna é um fato, também inegável, do futebol de hoje: a ascensão de Gabriel Jesus.

No distorcido debate sobre a qualidade das safras recentes de jogadores brasileiros, usado a serviço de oportunismo e realçado pela pobreza da Seleção nos últimos muitos anos, normalmente prefere-se ignorar que o que de fato aconteceu foi a diminuição da quantidade de jogadores acima da média que surgem no país. Algo que soa óbvio, embora Mino Raiola, influente agente com conexões no futebol de base no Brasil, tenha dito ao jornal britânico Financial Times que há “oito ou nove jogadores jovens brasileiros, cada um melhor do que o outro”.

Não ficou claro se o representante de Pogba e Ibrahimovic, entre outros, se referia também a Gabriel Jesus. Mas está claro que o atacante do Palmeiras, já negociado com o Manchester City, é um deles. Muito provavelmente o melhor deles. Gabriel tem só dezenove anos, e o que vimos até agora equivale a um aperto de mão e um sorriso, mas nos compele a imaginá-lo como mais um atacante brasileiro destinado à fama no futebol europeu, no mesmo caminho percorrido por aqueles que levaram outros povos a se perguntar qual é o segredo.

O segredo de Gabriel, ou um dos segredos de Gabriel, é a capacidade de combinar características antagônicas. Ele precisa ser egoísta para exercer seu papel de goleador, mas sabe ser generoso para se complementar a quem joga com ele. Faz passes com notáveis quantidades de capricho, seja pela visão para encontrar o homem livre, seja pela maneira como se perfila para produzir a assistência mais precisa possível. Quando é ele quem finaliza, demonstra a crueldade instintiva e a frieza dos experientes.

A exemplo do que se deu com Neymar, com quem forma uma parceria que promete ser assustadoramente duradoura na Seleção Brasileira, a trajetória de Gabriel Jesus sempre foi evidente para seu entorno, desde a adolescência e os comentários entusiasmados de quem o via jogar. Um caso de sucesso autorrealizável para o qual ele parece estar preparado do ponto de vista pessoal, único aspecto que pode desviá-lo da rota que está pronta na tela de sua carreira, sem trechos em vermelho ou sinais sonoros indicando atalhos que economizarão tempo.

Uma vez assegurado o título do Campeonato Brasileiro com o Palmeiras, no qual ele representou – junto com Moisés – a liderança técnica imprescindível aos times bem sucedidos, Gabriel poderá se dedicar a um novo clube, um novo país e, principalmente, um novo tipo de futebol. Não só o que ele experimentará na Inglaterra e na Europa, mas o que ele aprenderá com o técnico que personifica a excelência no jogo de ataque. Pep Guardiola lhe dará um mestrado em no mínimo dois anos e meio de convivência diária, período que será crucial em sua formação.

A principal qualidade dos atacantes dos times de Guardiola é a paciência para não interferir na construção do jogo no momento inadequado. Os definidores, aqueles que jogam nos últimos vinte metros do campo, precisam resistir à tentação de se envolver e acreditar que seus companheiros farão a bola chegar no instante e na situação que lhes serão favoráveis. Esse aprendizado se acelera quando a noção de que o processo coletivo traz benefícios individuais imediatos fica comprovada em campo. A ascensão de Gabriel Jesus está apenas começando.

(publicada em 21/11/2016, no LANCE!)



  • Joao Henrique Levada

    Engrosso a torcida pelo menino do sorriso triste.

    Temo que ele encontre dificuldade de adaptação por ficar longe de casa. Tomara que eu esteja errado e que ele continue crescendo como jogador.

    Neymar faz coisas incríveis sozinho, com Jesus, fará milagres.

    (Desculpem)

    Abraços.

    • Marcus Cerqueira

      Brincadeira inevitável e que, espero, ainda nos trará muitas alegrias em forma de gols e títulos.

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