No LANCE! de hoje



MEDIDA CERTA

Talvez seja uma tentação irresistível, ou um remédio imprescindível. A necessidade de colar uma etiqueta na Seleção Brasileira e no trabalho de Tite atingiu níveis escandalosos após a sexta vitória seguida, com a qual o ano, deprimente até a Copa América do centenário, terminou em alta nota. Porque aparentemente não é possível manter uma atitude sóbria, realista, sem extremismos para cima ou para baixo, a respeito do time e seu novo técnico.

A simplificação do futebol como mera questão de “motivação” ou “entrega” é uma fantasia que restringe o debate a superficialidades, uma rota conveniente para aqueles que preferem ignorar os vários aspectos do trabalho de técnicos, todos intimamente ligados ao estudo do jogo e de quem o pratica. Se o desempenho de times de futebol dependesse do tipo de “conversa” que se tem com os jogadores, haveria um sem número de treinadores de elite desempregados pelo mundo. Ou então não haveria treinadores de elite.

Por outro lado, a conversão de um time que fez meia dúzia de atuações em um paradigma da excelência é um exemplo de superestimação que o futebol simplesmente não aceita, mesmo que todas elas tenham sido elogiáveis. Pois não há amostra de enfrentamento suficiente para sustentar qualquer tipo de afirmação que se afaste, ainda que por um centímetro, da realidade das coisas. É uma rota tão perigosa quanto a mencionada no parágrafo acima, e igualmente baseada na superficialidade.

Foi a limitação de treinos a cada reunião da Seleção que levou a um planejamento quase obsessivo nos detalhes para otimizá-los. A escolha de um sistema conhecido pelos jogadores e a convocação de futebolistas acostumados a seus papeis no time colaboraram para minimizar problemas. Atribuir a sequência de vitórias ao tom de voz de Tite soa até desrespeitoso com um treinador que é um estudioso de seu próprio ofício.

Mas apesar de exibições de consciência e maturidade como de anteontem em Lima, este Brasil ainda tem muito a jogar e viver. É isso que Tite vem dizendo desde sua estreia, no Equador, quando o jogo de todo o time e o brilho individual de Gabriel Jesus surpreenderam até quem acreditava em dias melhores.

Não deveria ser tão complexo entender o que a Seleção Brasileira é hoje: líder das Eliminatórias Sul-Americanas para a próxima Copa do Mundo, um time atualizado com o que é moderno em conceitos, muito bem treinado e dirigido por um técnico extremamente capaz. Um time que devolveu ao público que se identifica com ele um motivo para se sentir orgulhoso e sonhar. Menos do que isso é injustiça. Mais é exagero.

(publicada em 17/11/2016, no LANCE!)



  • Joao Henrique Levada

    Eu tenho até arrepios quando ouço narradores, ou comentaristas, dizendo que é “o ambiente é outro”.

    De forma bastante abstrata, onde ambiente abrange uma porção grande de fatores, até entendo a forma resumida de apresentar os fatos. Todavia, me parece perigoso o emprego da expressão, como se apenas trocar a música do treino, ou bater um bom papo com os integrantes certos do elenco fizesse o time voar em campo.

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