No LANCE! de hoje



TRÊS TREINADORES

A não ser que uma sequência improvável de eventos interfira no destino do título brasileiro de 2016, o Palmeiras será campeão em algum momento das próximas quatro rodadas. O êxito do trabalho de Cuca será inegável e indiscutível, pois o troféu representa o alcance do objetivo estabelecido no início do ano, algo que o clube e a torcida perseguem desde 1994. Não existe campeão brasileiro de pontos corridos sem mérito, de modo que o resultado, cristalino após trinta e oito jogos (ou menos) fala por si.

A maneira como o Palmeiras de Cuca terá conquistado o campeonato é uma conversa inteiramente diferente. Embora seja lógico supor que a enorme maioria dos palmeirenses esteja satisfeita com o que vê, é preciso considerar aqueles que gostariam, por exemplo, que seu time fosse capaz de controlar jogos e vencer com menor dose de sofrimento. É igualmente necessário observar que o Palmeiras não foi construído para atuar assim, o que nos obriga, sem diminuir a importância do debate, a falar sobre projeto antes de qualificar a execução.

Por outro lado, o título iminente provavelmente não faz de Cuca o melhor técnico do campeonato. Pode soar paradoxal, mas não é. A campanha do Palmeiras está de acordo com o que se esperava dela e receberá o aplauso que os campeões merecem, mas a avaliação do desempenho de um treinador precisa ir além do resultado obtido por seu time. É um contexto composto pelas condições de que ele dispõe, os conceitos notáveis na maneira de seu time atuar, a forma como soluciona problemas e o futebol que é capaz de extrair do grupo com o qual trabalha.

Nessa ótica, Dorival Júnior talvez seja o melhor treinador do Campeonato Brasileiro. Não porque o Santos chegou às rodadas finais até com chances de disputar o título, mas por estar aí – sustentando um dos melhores aproveitamentos do futebol brasileiro em 2016 – com um elenco que não sugeria essa possibilidade diante do enfraquecimento causado pelas convocações das seleções brasileiras. O time de Dorival pratica um jogo de posse, passe e ataque, com jogadores utilizados de maneira criativa, sem rótulos, o que só é possível com ideias e treinamento.

O treinador santista é um dos que foram recentemente à Europa em busca de conhecimento, um movimento banalizado por quem julga conhecer as exigências do trabalho de treinar e dirigir times, mas que, quando feito com as fontes e intenções corretas, pode ser uma experiência transformadora. No que diz respeito a métodos de treinamento e modos de pensar o jogo, o futebol é, sim, uma ciência. E há um farto conteúdo disponibilizado pelos melhores técnicos do mundo que, respeitadas as distâncias evidentes, tem aplicação aqui. O time do Santos é prova disso.

Zé Ricardo deve estar próximo da unanimidade se a questão for quem é a revelação entre os técnicos do Brasileirão. Mantendo a tradição de profissional da casa que navega melhor pelas dificuldades justamente por conhecê-la, o treinador do Flamengo levou o time à parte nobre da tabela mesmo sem estar “pronto”. Sua permanência para 2017 é um acerto que premia não apenas a colocação do time na classificação, mas o tipo de futebol que o rubro-negro vem tentando jogar, com diferentes níveis de sucesso, desde que o substituto de Muricy Ramalho assumiu.

O jogo baseado na imposição técnica e na construção de movimentos coletivos de ataque é mais sofisticado, mais difícil e mais demorado em sua aplicação. Depende da convivência prolongada entre a comissão técnica e o grupo de jogadores, para que a assimilação gradual dos treinamentos seja transportada para a competição. O mesmo processo ocorre com as variações necessárias para que esse tipo de modelo de jogo seja bem sucedido. Não foi por outro motivo que, após um período em que deu mostras de que poderia tomar o campeonato de assalto, o Flamengo passou a sofrer mais.

(publicada em 14/11/2016, no LANCE!)



  • Anna Barros

    O técnico-revelação é Jair Ventura! Para mim, o melhor é Cuca. Mas Jair chega pertinho!!! Abraço, Anna.

  • Paulo Pinheiro

    Perfeito, André.
    Mas parte do sofrimento que o Flamengo vem tendo nessa reta final de campeonato diz respeito ao evidente cansaço físico. Nenhum clube teve um ano mais desgastante do que o Flamengo que jogou “fora de casa” vários meses. Penso que embora o discurso seja outro o foco na Gávea deve ser manter-se no G3.

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