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O cartão amarelo de Fernandinho, fruto de uma falta não cometida sobre Messi logo aos seis minutos, teve consequências mais amplas do que a evidente limitação em seu papel de contenção do dez argentino. Toda a Seleção Brasileira percebeu a imediata necessidade de proteger o centro do campo – principal região de influência de Messi – e teve receio de, ao assumir seu papel naturalmente ofensivo, ceder espaço na intermediária de defesa a um jogador de alta periculosidade. O clássico mal tinha começado e o alarme de um problema potencialmente grave soava na cabeça de Tite. A estratégia prevista de usar pressão alta nos minutos iniciais tinha sido desativada.

A primeira decisão do técnico foi alterar a vigilância a Messi com um ajuste entre as funções de Fernandinho e Paulinho. A segunda, observar a reação do meiocampista do Manchester City à má notícia precoce: possível perda de concentração, inibição para seguir cumprindo as tarefas de marcação, falta de naturalidade nos movimentos ou de confiança na tomada de decisões. O pior cenário imaginável era um cartão vermelho no começo do jogo, e a única maneira de garantir que Fernandinho não seria expulso era substitui-lo. Tite contemplou essa possibilidade enquanto orientava uma nova rota para a saída do Brasil de seu próprio campo.

A Argentina controlava os movimentos àquela altura, aproveitando-se do temor em relação a uma ameaça que não se concretizou porque Alisson defendeu um chute de Biglia, acionado por Messi em uma jogada que Neymar deixou de acompanhar. A mudança de papeis no meio de campo deu mais liberdade a Renato Augusto, e a autorização para a movimentação de Coutinho permitiu a construção do primeiro gol. Ali, precisamente, o plano argentino foi feito em pedaços, pois os defeitos de montagem da seleção de Bauza (mais sobre isso adiante) tornam uma virada contra um time como o Brasil um objetivo quase impossível.

Porque a dinâmica de Coutinho/Gabriel Jesus/Neymar contra a Zabaleta/Otamendi/Funes Mori/Más é tragicamente desfavorável à Argentina, especialmente quando essa linha defensiva apresenta sua versão do “desafio do manequim”, como se viu no segundo gol. A aceleração de Neymar, assustadora até para defensores móveis e de reação rápida, é mortal para zagueiros lentos ou expostos. Como disse Bauza, o 2 x 0 encerrou o encontro em relação ao vencedor, pois a pressão adiantada no segundo tempo levaria, como levou, a uma situação em que gols brasileiros seriam mais prováveis do que gols argentinos.

A Argentina atua em um sistema que está cerca de oito anos atrasado em relação ao que se pratica no futebol de clubes no Brasil. Como a Seleção Brasileira é um time atualizado, a goleada – que deveria ter sido mais larga – traduziu essa distância temporal. A escalação utilizada por Bauza no Mineirão comete o equívoco de exigir ao melhor jogador do mundo que gere movimentos, quando o correto seria aproveitar suas qualidades para finalizá-los. É um desperdício agravado pelo deserto de ideias representado por um meio de campo essencialmente defensivo, uma forma de jogar que pretende se aproveitar do acaso e da sorte, ao invés de investir em virtudes.

Há duas maneiras básicas de enfrentar times como Seleção Brasileira de hoje, que dominam o futebol elaborado, paciente, agregado à transição em velocidade quando a partida pede: com receio, mais preocupada com o próprio gol, e com coragem, buscando superar o adversário em jogo. Tite está correto quando menciona a surpresa com o estágio de desenvolvimento da Seleção, mas seu Brasil caminha para o que tem condições de ser no aspecto coletivo. A visita ao Uruguai, em março do ano que vem, será uma experiência reveladora por apresentar um nível de dificuldade consideravelmente maior do que o experimentado nas cinco vitórias recentes e, tudo indica, no jogo contra o Peru.

(publicada em 12/11/2016, no LANCE!)



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