No LANCE! de hoje



“CORINTHIANIZAÇÃO”

O Corinthians estava em pré-temporada em Orlando, em janeiro, quando surgiram os primeiros sinais de que 2016 não seria divertido como uma viagem à Disney. Eduardo Ferreira, então diretor de futebol, achou boa ideia enviar um calmante à torcida, incomodada com o esquartejamento do time que conquistara o Campeonato Brasileiro semanas antes. Jadson, Renato Augusto, Ralf e Vágner Love já tinham se despedido, não seriam os únicos, mas Ferreira resolveria tudo com o poder do pensamento positivo e a garantia de que o Corinthians mostraria “o mesmo futebol do segundo semestre de 2015”.

A temporada ainda não acabou, mas já desmentiu o ex-diretor, desprovido de formação, currículo ou capacidade que o revelasse apto para atuar no departamento de futebol de um clube como o Corinthians. Antes de Ferreira, a função estava a cargo de Sérgio Janikian, a quem o Google contempla unicamente com a terrível gafe do “presente de Deus”, referência ao cruzamento com o Guarani do Paraguai, que terminou por eliminar o clube da Copa Libertadores do ano passado. Em substituição a Ferreira, o presidente Roberto de Andrade escolheu Flávio Adauto para a posição, novamente expondo o Corinthians aos perigos do amadorismo.

As habilidades de Adauto para desempenhar um papel tão importante são desconhecidas, o que é suficiente para qualificar a nomeação como temerária. Sua tentativa de se justificar recorrendo a décadas de acompanhamento do futebol enquanto trabalhou como jornalista, depois como participante temporário da gestão de Alberto Dualib (como vice-presidente de comunicação) e, mais recentemente, como conhecedor do ambiente do clube, nada mais é do que uma confirmação da ausência de credenciais. O trabalho de um executivo de futebol exige muito mais, embora o presidente corintiano – que tanto fala em profissionalismo – insista em ignorar.

Estamos assistindo à “corinthianização” do Corinthians. O termo foi criado nos bastidores do São Paulo, no final da década de 1990, para caracterizar o período do presidente José Augusto Bastos Neto. À época, declarações folclóricas que se distanciavam do perfil clássico do dirigente são-paulino geraram comparações entre a gestão de Bastos Neto e a forma como o Corinthians era administrado. Hoje, o mito do São Paulo como clube de vanguarda já não é mais levado a sério, o que não significa que o Corinthians tenha deixado de oferecer exemplos de despreparo e negligência com os patamares mínimos de competência que sua coletividade merece.

Para certo tipo de torcedor, muito provavelmente a maioria, só importa ganhar. A relação com o futebol e o time é baseada em um remédio para frustrações, de modo que o prazer efêmero – embora muitos não sejam capazes nem mesmo dessa sensação – das vitórias e das conquistas basta para que ele seja “feliz”. Esse é o mesmo torcedor que se volta ferozmente contra o time em épocas de estiagens, porque a derrota o humilha e ninguém gosta de se associar a perdedores. Cartolas que não passam de torcedores com acesso, dependendo das conexões políticas das quais dispõem, conseguiram destruir o caráter representativo dos clubes de futebol.

As decisões de Roberto de Andrade já seriam suficientemente preocupantes se a mudança na conjuntura política do país não expusesse a Arena de Itaquera como um problema sem solução, proporcionando uma releitura – dependendo do interesse e da capacidade, claro – do que se pode chamar do “Corinthians de Andrés Sanchez”. Para agravar o quadro, o rival Palmeiras, usuário de um estádio cujo único defeito é o gramado, aproxima-se do primeiro título do Campeonato Brasileiro desde 1994. E o Flamengo, colosso popular, começa a mostrar os efeitos práticos da gestão responsável.

(publicada em 31/10/2016, no LANCE!)



  • J.H

    Salvo melhor juízo, acho que o presidente do Corinthians no que se refere a finanças, está agindo corretamente. O Flamengo, aqui citado como exemplo, dono de uma dívida impagável, fez exatamente o mesmo, e não sabia o que era G4 há 06 anos. Quanto a nomeação de diretor, fica claro que se trata de uma composição politica para apaziguar desavenças internas. Insensato seria o clube se endividar diante da atual situação do país. Quanto ao Palmeiras, teve um Presidente que abriu a carteira. Se o Corinthians conseguir arrumar um igual, talvez se equilibre. E o que dizer do Inter, que não sabe o que é um titulo nacional há 37 anos? Imagine o Corinthians numa dessas?Salários de jogadores do Palmeiras são fora da realidade. Lucas Barrios tem o salário pago integramente pela Crefisa. Quanto ao estádio, realmente hoje é um problema. Porém muitas empresas também não esperavam por essa crise, e não apenas o Corinthians, bem geridas, hoje em recuperação judicial.Tem TVs demitindo, planos de saúde mal das pernas, enfim, dizer que só o Corinthians não teve visão, é exagero. Mesmo assim, o clube com maior média de publico com tudo isso é o Timão. Não se trata de defesa de diretor, ou de gestor, mas de observar os fatos com base na realidade. Uma pena, afinal.!

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