No LANCE! de hoje



URGENTE

Voltemos à questão da arbitragem eletrônica, de uma vez por todas. Pode ser desagradável, mas é necessário. O episódio do Fla-Flu de Volta Redonda deve servir como ilustração definitiva do nível de ridículo com que temos de conviver. E não é possível, francamente, que não se perceba que ali, naquele espetáculo de anacronismo, está a diferença entre o que o futebol pode ser com a colaboração do recurso de vídeo e o que é sem ele. É uma diferença tão cristalina quanto o triplo impedimento no gol de Henrique. Tão brutal quanto a comparação entre o telefone de disco e um iPhone, ou entre uma carta e uma mensagem de WhatsApp.

Uma questão para quem assistia o clássico carioca pela televisão: em quanto tempo ficou comprovado que o segundo gol do Fluminense foi irregular? Respostas podem variar, mas não ultrapassarão a marca de um minuto. A primeira repetição do lance foi suficiente para identificar as posições adiantadas de três jogadores, e a segunda esclareceu que o autor do cabeceio era um dos impedidos. Henrique e alguns companheiros ainda pressionavam o assistente de linha Emerson Augusto de Carvalho quando todos os espectadores diante de uma tela já sabiam que a marcação estava correta.

Agora lembremos do tempo consumido pela transformação do gramado do Raulino de Oliveira em um picadeiro, com a equipe de arbitragem cercada e exposta a todos os tipos de influência, enquanto a audiência fora do estádio aguardava para descobrir como a bagunça terminaria. Doze minutos. Com boa vontade, em nome do debate construtivo, estabeleçamos que o árbitro de vídeo demoraria dois minutos – o dobro do tempo necessário para que você, em casa, concluísse o óbvio – para analisar as imagens e se comunicar com o apitador em campo. O papelão do atraso gastou seis vezes mais. Seis.

Sem falar que a cena que se armou desde a primeira reclamação não teria acontecido. O protocolo do árbitro assistente de vídeo que a Fifa aprovou para testes determina a revisão de gols, para garantir que foram legais. O texto do documento sobre a utilização do sistema diz que a análise procurará “impedimento, falta, mão na bola ou qualquer outra violação da regra”. No momento em que o cabeceio de Henrique tocasse a rede do Flamengo e o assistente de linha levantasse a bandeira, todos saberiam que a jogada seria submetida às imagens, portanto de nada adiantaria pressionar a arbitragem. A prevenção desse comportamento, um triste hábito de todos os times, é outra contribuição importante da tecnologia.

De modo que quem é contra a utilização do vídeo para auxiliar a arbitragem de futebol deve estar disposto a lidar com situações como a da última quinta-feira, incluindo o desenrolar de bastidores com as constrangedoras manifestações públicas de dirigentes e o provável envolvimento da justiça desportiva, sempre aquecida e pronta a entrar em campo. É uma postura retrógrada e incapaz de enxergar que apenas dois replays bastariam para evitar tudo o que aconteceu desde a marcação de Emerson Augusto de Carvalho. Também é uma postura covarde, que escolhe o caminho da acusação a árbitros e assistentes, seres humanos dos quais se exige uma tarefa impossível.

O protocolo do árbitro assistente de vídeo está em período de experiência. As associações de futebol da Austrália, Alemanha, Portugal, Holanda, Estados Unidos e Brasil receberam autorização para testar a inovação. O objetivo da Fifa é desenvolver um sistema que seja capaz de corrigir erros que alteram os resultados de partidas, sem que o fluxo natural do jogo de futebol sofra prejuízo, para ser utilizado de forma oficial na Copa do Mundo de 2018. O que aconteceu em Volta Redonda precisa ser o estímulo para que a CBF acelere seus planos, ou então as pessoas responsáveis devem se confessar admiradoras do charme do erro humano no futebol.

(publicada em 17/10/2016, no LANCE!)



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