No LANCE! de hoje



OBITUÁRIO

A arbitragem brasileira de futebol morreu. O sepultamento aconteceu na noite de anteontem, no estádio Raulino de Oliveira, em Volta Redonda. Foi uma cerimônia rápida, porém tumultuada. Em apenas doze minutos, o apito nacional teve a despedida que merecia: em meio a um Fla-Flu decisivo para a disputa do título do Campeonato Brasileiro, uma honra insuperável. Neste momento de consternação, é confortante lembrar que só os privilegiados têm a sorte de dizer adeus fazendo o que gostam.

A causa da morte foram complicações decorrentes de um lance de impedimento, mas o quadro de saúde já vinha apresentando debilidades por causa da exposição constante às imagens da televisão. Não se deve desconsiderar a conduta da equipe médica responsável pelo acompanhamento do apito brasileiro, que sempre preferiu ignorar os sinais de falência múltipla e optar por medidas conservadoras, mesmo após o surgimento de técnicas modernas de tratamento. Os claros indícios de negligência deveriam ser investigados pelas autoridades.

É hora de apresentar as condolências e, como pede a etiqueta quando se trata de quem se foi, lembrar de suas virtudes em tom respeitoso. Em seus últimos anos de vida, a arbitragem foi enfraquecida pelos avanços tecnológicos que evidenciaram sua obsolescência, mas resistiu com o tipo de obstinação que se confunde com teimosia. Analistas certamente mencionarão as frequentes passagens que a expuseram ao ridículo, por causa da incapacidade de acompanhar as transformações do ambiente em que desempenhava um papel preponderante.

Seus minutos finais foram um retrato do processo que a vitimou. Cobrança de falta, bola aérea, gol de cabeça. Três jogadores em posição de impedimento, incluindo o autor do gol. O assistente sinalizou a irregularidade, mas, combinada com as reações veementes de parte dos jogadores em campo, a fraqueza do apito brasileiro o levou a reformar a decisão. A validação do gol disseminou a dúvida e a carência de autoridade, estimulando os atletas do outro time a pressionar a pobre arbitragem com notável indignação. Eles provavelmente já sabiam do que só o apito ignorava.

Esses episódios se tornaram comuns na vida de um apito idoso e doente. A resistência a se reciclar e utilizar os avanços eletrônicos a seu favor o converteu em um tipo ultrapassado, pouco zeloso de sua própria imagem. Durante a sequência fatal, a televisão repetiu incessantemente o lance de impedimento indiscutível, conferindo ao tumulto dentro de campo um aspecto circense. Os derradeiros suspiros se deram em uma conferência cercada por policiais, com opiniões dissonantes ouvidas aos gritos, até que o gol foi finalmente anulado.

Por absoluta, porém apropriada, ironia, o falecimento da arbitragem brasileira aconteceu em uma tragédia provocada por um acerto. Um acerto que ilustra a comédia de equívocos e enganos que caracterizou sua terceira idade, espetáculo no qual ela não foi a única atriz. É mais do que triste. No momento de sua partida, aqueles que tinham o dever de ajudá-la não podem escapar do julgamento por terem sido incansáveis na exploração de suas fraquezas, jamais na atualização de suas habilidades. São crocodilos chorando.

ESCLARECIMENTO

É surreal que se queria discutir a eficiência da tecnologia em situações como a do último Fla-Flu. O protocolo de árbitro de vídeo aprovado pela Fifa prevê a revisão de todos os gols, entre outras situações de jogo. Não, o sistema não será utilizado para corrigir lances de impedimento, mas poderá impedir a validação de gols marcados por jogadores impedidos. Essa é uma de suas atribuições mais importantes na proteção de jogos dos equívocos da arbitragem, por causa da incidência de gols irregulares.

PERGUNTA HONESTA

Você não ficaria constrangido ao lutar pela validação de um gol em impedimento?

(publicada em 15/10/2016, no LANCE!)



  • Lindon Johnson

    resposta honesta a sua pergunta honesta com outra pergunta honesta: vc prefere não prejudicar 1 e assim prejudicar 19?

    • André Kfouri

      Contorcionismo retórico para tentar justificar a validade de um gol ilegal.

      • Carlos Eduardo Freitas

        André, erros de arbitragem ocorrem toda rodada, mas não são revistos pela TV. Resumir a questão à validade de um gol irregular não se justifica. Se assim fosse, o primeiro gol do jogo também deveria ser anulado com a ajuda da tecnologia.

        Não é justo que apenas 1 lance em todo campeonato seja anulado pela TV. Isso configura juízo ou tribunal de exceção, no qual se condena um e absolve outros pelo mesmo crime.

        • Ailton Souza

          Caro Carlos Eduardo

          O lance do primeiro gol do Flamengo, pode se dizer que o Réver ao ser empurrado pelo Pierre (em busca de espaços) esbarrando em Julio César, ele , Réver, levou vantagem no lance o que ocasionaria a anulação do gol do Flamengo?
          Pergunta a você: Você está dirigindo o seu carro, um carro em alta velocidade bateu no seu carro, você perde o controle, atropela e mata um pedestre.
          Você deve ser julgado por homicídio doloso?
          Diferente do Código Penal que tem a lei fria e seus atenuantes e agravantes.
          A regra 11- o atleta impedido deve jogar, interferir ou ganhar vantagem no lance.
          O Réver não jogou
          O Réver não ganhou vantagem. O gol foi contra
          O Réver interferiu?
          Esta é a questão: a interferência dele não foi intencional.
          Se você ver o lance mais uma vez, você verá que o Pierre, como um lutador de luta greco-romana, está empurrando o Réver para fora da área de luta, nesse caso para área de impedimento.
          O Sálvio dar uma explicação fria, uma coisa é você dar um passo a frente e colocar o jogador em impedimento, outra e você deliberadamente com o corpo (sem falta) fazer o adversário dar um encontrão no seu companheiro.
          O próprio Sálvio na sua explicação (http://espn.uol.com.br/post/611374_jogar-interferir-ou-ganhar-vantagem-regra-18-explica-a-famosa-norma-11-do-impedimento) não tem uma situação para ilustrar a interferência.
          Caso tenha falado alguma besteira que AK nos auxilie

          Obrigado

  • Paulo Pinheiro

    O comentário é perfeito, André.
    No entanto tem uma coisa nessa história toda que me incomoda sobremaneira:
    Não seria o caso de direcionar essa pergunta honesta aos jogadores do Fluminense?
    Sim, eu entendo que você quis frisar que é anacrônico entrar com uma ação pelo direito de ter um gol irregular marcado para si, mas realmente me incomoda que nenhum dos comentaristas que li até agora tenha censurado/criticado a atitude dos jogadores do Fluminense.
    Explico: até o momento em que o auxiliar aponta o impedimento e o árbitro anula o gol estava tudo absolutamente límpido e cristalino. O problema começou quando os jogadores do Fluminense tiveram a atitude canalha de partir pra cima do auxiliar pra ganhar no grito e na pressão um gol que não lhes pertencia. Falta de caráter.
    Se não dá pra tirar da arbitragem a culpa pela indecisão, pela confusão, pela demora e pela falta de autoridade me incomoda sobremaneira que os jogadores do Fluminense saiam limpinhos dessa história. Como assim?
    Será que esse tal de Henrique, após perceber que o Brasil inteiro viu que ele partiu pra cima do auxiliar pra reclamar um gol inexistente não fica nem um pouco vermelho? Não faz nenhuma autocrítica? Continua achando que o único problema foi o suposto uso de uma ferramenta irregular pra dirimir dúvidas (e eu duvido que o árbitro tenha pedido auxílio)? Absolutamente nada foi por culpa dele – Henrique?
    Até quando vamos continuar achando normal esse tipo de canalhice? Até quando essas dissimulações serão exibidas nas nossas TVs diante de nossos filhos?
    Repito: não tiro a responsabilidade do árbitro pela falta de pulso e de controle, mas realmente seria um grande alento saber que vocês, formadores de opinião, também ficam indignados com cachorradas como as desses jogadores que querem posar de vítimas, mas que foram OS GRANDES DETONADORES da confusão que aconteceu.
    Abraço, e desculpe o desabafo.

    • André Kfouri

      Você parte do pressuposto que o Henrique sabia que estava impedido e tentou enganar a arbitragem. Eu prefiro o pressuposto de que ele achou que não estava impedido, e, como infelizmente é frequente, tentou pressionar a arbitragem. Esse tipo de postura está disseminado e colabora para arbitragens confusas, mas não há nenhum time que não faça. Os jogadores do Flamengo fizeram a mesma coisa e, a não ser que todos estivessem dizendo, apenas, que não concordavam com a mudança da decisão, também tentaram persuadir o árbitro sem saber se tinham razão ou não. Um abraço.

      • Paulo Pinheiro

        Sim, esse terrível hábito está disseminado. Mas é em casos “célebres” como este que surge a oportunidade de falar a todos através dos protagonistas.
        O Henrique poderia “achar” que não estava impedido. Achar é o suficiente pra fazer a pressão canalha que fez? Certeza ele não poderia ter, já que ele ESTAVA impedido. Então ele não poderia ter segurança suficiente pra argumentar daquela forma.
        Por fim: eu vejo diferença entre você pressionar um árbitro a errar ou protestar porque viu o árbitro ceder a essa pressão por parte de quem cometeu a infração. Porque fica a certeza de que não foi pela convicção dele que tal decisão foi tomada.

  • George

    Eu fico mais constrangido por dezenas de gols impedidos terem sido validados no campeonato, mas só um tenha sido anulado com ajuda externa, o que é ilegal, proibido e constitui erro de direito nas regras do futebol.
    Fico mais constrangido pelo gol em impedimento no mesmo jogo que foi validado porque não teve ajuda externa para auxiliar o árbitro.
    E fico ainda mais constrangido pela mídia omissa, que só se indigna quando quer, olhando para a cor da camisa antes de emitir uma opinião que deveria ser imparcial!

    • André Kfouri

      “A mídia” não existe. Dê nome.

  • Alisson Sbrana

    Texto formidável!!!

    A CBF deveria contratar o George Romero para dirigir nossa arbitragem, não?

  • Bruno Fernandes

    André, sou Palmeirense e de forma alguma quero que um gol claramente ilegal seja validado, porque seria uma falta de coerência enorme. Mas se manifestações externas interferem no jogo enquanto isso é ilegal, é preocupante. Principalmente quando olhamos para além da arbitragem e, vemos regras mudadas no meio do campeonato, como a proibição de venda de mandos que antes podia e agora não pode, o G4 que agora é G6, o campeonato que não teria jogos em data FIFA e passou a ter, o Palmeiras e o Flamengo que mudaram as datas de seus jogos devido a este fato, enquanto o Atlético-MG não pôde fazer o mesmo, quando era quem mais tinha jogadores servindo seleções etc.

    Então assim, num cenário desses, os dirigentese dos clubes, pra mim mais culpados que a própria CBF por isso tudo uma vez que não se unem, entram naquela forma de agir que ainda pauta nosso futebol: quem não chora não mama. Paulo Nobre pra mim não pode reclamar, porque se você apóia aquela patacoada do Coronel de presidente de fachada da CBF, você não pode reclamar. Do mesmo jeito que o Bandeira, não tem direito a reclamar a partir do momento que começa a andar de mãos dadas com a CBF em viagens da seleção, ainda mais depois de pretensamente querer parecer peita-la. Hoje sabemos que isso era só jogo de cena. Aí a gente pode falar também do Presidente do Santos quando reclamou da arbitragem no jogo contra o Internacional e por aí vai. Como você disse no texto, são crocodilos chorando.

    E acho que neste cenário a péssima arbitragem é resultado deste caos todo, e não é a arbitragem por si só quem causa isso. É difícil mudar o modus operandi do “quem não chora não mama” porque isso é cultural, basta ver que dentro do campo os jogadores sempre reclamam estando certos ou errados. Então eu acho que enquanto a CBF “organizar” nosso futebol e os clubes tiverem rabo preso com ela, esse chororô todo vai continuar e, a parte boa que é este campeonato emocionante e jogos dramáticos, vai ficando de lado e vai se perdendo totalmente a graça de tudo. A estrutura arcaica do nosso futebol faz de tudo para sabotar qualquer coisa que o futebol no Brasil ainda tem de bom, que no caso, é um campeonato sempre com times equilibrados, e principalmente agora, com todos os jogos decisivos, com uma carga de emoção absurda. E essas coisas que aconteceram não só essa semana, como desde aquela punição inútil dada pelo STJD as torcidas de Flamengo e Palmeiras, vão tirando a graça até disso, e enchendo o saco. E olha que meu time está a beira de conseguir um título muito importante e que não vem a muito tempo.

    Porque quando vamos falar sobre futebol com os amigos é só essa conversa e esse chororô que entra em pauta, e é só a isso que se dá ênfase. Nas conversas de bar, em casa, no trabalho e também quando se liga a TV pra ver a análise dos programas esportivos. Claro os fatos estão aí é ninguém pode ficar cego a eles. Mas o fato de que todo campeonato esse tipo de coisa se repete, torna um saco acompanhar o futebol daqui. E depois não entendem porque a molecada prefere torcer e acompanhar times europeus, ao invés do time de sua cidade, estado ou país.

    Enfim…é um saco tudo isso…desanima. Hoje queria celebrar a vantagem que meu time abriu na liderança. Mas só consigo sentir uma certa frieza, apesar de ter comemorado muito ontem. Abs

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