No LANCE! de hoje



REPOSICIONAMENTO

Em agosto de 2011, Alemanha e Brasil se enfrentaram em amistoso na cidade de Stuttgart. A Seleção Brasileira não jogou mal na derrota por 3 x 2, mas a construção do segundo gol alemão – o primeiro de Mario Gotze por seu país – demonstrou a distância entre os estágios de cada time em campo. Joachim Low estava no processo de converter a Alemanha na melhor seleção do mundo, posto que ocupa até hoje. O Brasil, naquela noite sob o comando de Mano Menezes, em breve sentiria a atração do campo de força do 1×7.

A jogada do gol de Gotze foi um vislumbre do que aconteceria no Mineirão, três anos mais tarde. Um breve exemplo do futebol associado que segue caracterizando a vanguarda do jogo, apesar da teimosia dos que pensam que a elaboração é um ideal romântico. Toni Kroos recebeu a bola na intermediária de ataque, marcado por Ralf. Miroslav Klose retrocedeu apresentando-se para o passe, em um movimento que obrigou Lucio a segui-lo. Foi apenas uma parede. De primeira, Klose devolveu. Também de primeira, Kroos acionou Goetze, que entrou pelo espaço deixado por Lucio, driblou Julio César e rolou para a rede.

Posse, criação de espaço, ataque ao espaço, circulação rápida da bola. Conceitos que a seleção alemã continua desenvolvendo para praticar uma classe de futebol que a diferencia, como se notou na vitória de anteontem sobre a República Tcheca, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. E não são apenas as ideias, como o campo aberto ao máximo, a movimentação incessante pelo centro, a bola que sai da defesa por um lado e chega ao ataque pelo outro. Ver a Alemanha jogar é perceber futebolistas interpretando o jogo em todos os momentos, mesmo aqueles que estão distantes do lance.

Nos 3 x 0 de sábado, em Hamburgo, os alemães tiveram 66% de posse, com 92% de acerto em 633 passes e apenas oito faltas. Sete das dezesseis finalizações foram no alvo e produziram os gols de Thomas Muller (2) e Toni Kroos. Uma exibição do mais alto grau de sofisticação em futebol coletivo, resultado de um trabalho baseado na continuidade e aperfeiçoamento de uma maneira de atuar que não, não garante vitórias, mas assegura as chances de alcançá-las independentemente das circunstâncias e das imprevisibilidades do jogo. Derrotas ocasionais, como a sofrida para a França na última edição da Euro, são vistas como tais.

A Seleção Brasileira começa a percorrer um caminho semelhante, com muitos conceitos em comum com o exemplo alemão, aos quais devem se incorporar as características dos jogadores disponíveis e as convicções da comissão técnica. As entrevistas de Tite e as recentes atuações do time sugerem que o que se persegue, a médio prazo, é aplicar a interpretação brasileira do que existe de mais atualizado no futebol. É preciso respeitar o tempo de amadurecimento e calibrar o nível de exigência, mas não há motivo para duvidar das possibilidades de formação de uma Seleção capaz de jogar e vencer como as melhores.

Em termos de material humano, Neymar representa o tipo de brilho individual que a seleção alemã não possui, por exemplo. O desafio é estabelecer as condições para que ele seja o elemento transformador, o jogador acionado para fazer diferença. Mas como bem diz Tostão, com a clarividência habitual, o que levará o Brasil ao próximo nível como time é a descoberta de um meiocampista desequilibrante, a quem ele se refere como “um craque do meio de campo”. A ausência desse jogador é um defeito do futebol brasileiro, quase tão grave quanto a insistência no jogo pobre.

NATURAL

Em entrevistas no fim de semana, Vanderlei Luxemburgo (Fox Sports) e Celso Roth (Zero Hora) diminuíram a importância de Pep Guardiola. É obrigatório notar o caráter esclarecedor desse tipo de opinião, que confere sentido a aspectos das trajetórias de cada um deles. Mesmo que seja apenas para causar polêmica.

(publicada em 10/10/2016, no LANCE!)



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