COLUNA DOMINICAL 



COMO?

Estamos diante de um fenômeno de extrema complexidade. Em pouco mais de três meses, com os mesmos recursos e as mesmas dificuldades de outros treinadores, Tite conseguiu transformar a Seleção Brasileira no time que você quer ver. Sim, você mesmo. Talvez você esteja com o dedo em riste, balançando a cabeça em sinal negativo, dizendo que não se deixará seduzir pela euforia momentânea e que não viu nada demais. Ou talvez você prefira o futebol vulgar ao qual o Brasil acostumou o mundo. Não se preocupe, vai passar.

A nova comissão técnica recebeu a Seleção em sexto lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas, logo após uma eliminação na fase de grupos da Copa América do centenário da Conmebol. Sete treinos e três jogos depois, o time está em segundo lugar, com possibilidade de assumir a liderança na terça-feira. Esse é o salto provocado pelas vitórias sobre Equador, Colômbia e Bolívia, puramente um reflexo dos resultados. Mas a forma como esses resultados foram construídos diz muito mais a respeito do que está acontecendo. Como é possível?

Como explicar o futebol elaborado, ofensivo, atraente? Como entender as atuações de Neymar, instalado em um contexto coletivo que lhe extrai o melhor? Como aceitar o desempenho de nomes contestados quando convocados, porém à altura de funções importantes? Como processar uma atualização tão radical, em tão pouco tempo? Como digerir a conclusão de que a Seleção Brasileira, após anos de estagnação, subitamente se converteu em um time, no sentido mais básico do termo? Como, por fim, resistir à mediocridade de questionamentos do tipo “mas ainda não ganhou nada”?

Há duas maneiras de responder. Pode-se valorizar a trajetória de um treinador que não se satisfez com o próprio currículo e decidiu importar habilidades para pensar o futebol de novas formas. Ou permanecer atado ao que cabe chamar de “dunguismo”, sem que seja uma referência à pessoa, mas a um jeito de enxergar e praticar futebol que não é compatível com as melhores expressões do jogo e as sensações que ele proporciona. Quanto maior a capacidade dos jogadores às ordens de um técnico, mais trabalho ele terá. A Seleção Brasileira não pode jogar futebol opaco.

Estes são tempos desafiadores. Há um conteúdo enorme de conhecimento sobre futebol disponível a interessados. Os conceitos mais modernos de preparação e competição são acessíveis, atualmente, como jamais foram. E os produtos de tais conceitos estão em exibição pela televisão em uma oferta inédita de horas e opções. Mesmo assim, há quem pense, por exemplo, que a Copa do Mundo de 2014 não apresentou nada de novo na forma de jogar este jogo. Ou que tudo que existe hoje é uma releitura do que já se fez. O negacionismo do trabalho de técnicos é uma força que precisa ser combatida.

Sim, era só a Bolívia no gramado da Arena das Dunas, na noite de anteontem. Mas quatro gols foram gerados coletivamente e a Seleção seguia marcando no campo do adversário ao final da noite, vencendo por 5 x 0. As últimas três atuações do time de Tite lançaram luz sobre uma falácia frequentemente repetida nos últimos anos; a de que a geração atual de jogadores é ruim. O futebol não aceita esse tipo de desaforo.

COVER

Neymar não jogará contra a Venezuela, no que será mais um experimento para a Seleção Brasileira. Se antes a ausência do melhor do time era um dilema, agora é um convite: continuar atuando com as mesmas ideias, mas com outro nome na figura do jogador que desequilibra. O normal é que Phillippe Coutinho ocupe o lado esquerdo, como faz em seu clube, e que Willian volte à formação titular. Assim o ataque conservaria o caráter fluido e difícil de marcar, sem que a estrutura do time sofra qualquer alteração. Coutinho tem jogo para ser o cover de Neymar, e com brilho.

(publicada em 8/10/2016, no LANCE!)



  • Mariana

    Recentemente tem dado vontade de assistir jogos da Seleção. E a vantagem é que a mudança de técnico atrai até mesmo as pessoas que não são tão fanáticas pelo esporte, mas que gostam de ver o Brasil jogar. Prova disso é que amigas minhas, que não costumam fazer isso, têm se ajuntado para assistir aos jogos do Brasil em diferentes lugares. Não dá para fazer isso quando o futebol não empolga, mesmo quando há – como houve durante certo tempo com o Dunga – resultados.

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