Trajano, o criador



Na noite de 9 de julho de 2006, um grupo de jornalistas, cinegrafistas e técnicos em televisão se reuniu em um salão de hotel em Berlim, Alemanha. Horas antes, no mais belo estádio de futebol jamais construído, a Itália tinha vencido a França nos pênaltis e conquistado a Copa do Mundo pela quarta vez.

A última noite de trabalho de uma longa cobertura já estava no passado, e entre garrafas de cerveja e sanduíches, aquelas pessoas tentavam processar a exaustão, a saudade, a sensação de mais uma missão cumprida e a valiosa falta do que fazer por horas. Alguns tinham voo na manhã seguinte, outros teriam dias de folga a aproveitar, todos tinham muito sono a recuperar. Mas ninguém queria sair daquele salão.

Cobrir uma Copa do Mundo, especialmente longe de casa, é uma experiência deliciosa, desgastante e enriquecedora. Uma experiência que separa pessoas acostumadas a trabalhar juntas por um longo tempo, espalhadas por cidades de um mesmo país. Ali, num espaço em que não havia cadeiras para todos, cerca de quarenta colegas se encontraram para encerrar mais uma viagem, com muita história para contar. 

Quando o cansaço se instalou, a maioria se sentou no chão. Sem que houvesse qualquer intenção, eles perceberam que formavam um círculo, como esses que professoras determinam nas salas de aula de escolas infantis. Foi quando aconteceu algo verdadeiramente inesquecível.

Ninguém que lá estava saberá dizer ao certo como começou, mas se estabeleceu uma dinâmica em que cada pessoa falava ao grupo sobre suas impressões a respeito da cobertura. Experiências e opiniões passaram a ser divididas em um processo absolutamente espontâneo, unindo pessoas de funções, formações e idades diferentes. Cada depoimento gerava um comentário, cada comentário gerava uma pergunta, cada pergunta gerava um novo depoimento e, entre aplausos, a noite virou madrugada. 

De fato, foi uma celebração. Por intermédio do que cada um tinha a dizer, aquele grupo estava comemorando o final de um trabalho e, mesmo que não percebesse, saudando o fato de trabalhar junto. O senso de pertencimento era notável, a satisfação era evidente, o tipo de ambiente que – diziam os que já tinham passado por outras empresas – não se encontra facilmente. 

Naquele salão havia jornalistas que entraram, imberbes, pela porta de uma pequena casa de paredes de tijolinho em uma rua do bairro do Sumaré, em São Paulo, sem saber absolutamente nada do que estavam fazendo, em meados dos anos 90. Enquanto falavam sobre a aventura na Alemanha, pensavam nas mulheres com quem casaram, nos filhos que já tinham e nas carreiras que permitiram tudo isso. Eram jornalistas formados por aquele grupo.

Havia jornalistas de currículo extenso, gente capaz de ensinar todos os dias, modelos para quem enxerga a profissão com a seriedade que hoje parece – só parece – fora de moda. Eram os exemplos daquele grupo. 

E havia o jornalista que tinha tornado o sonho possível. Que descobriu muitas daquelas pessoas, que contratou a maioria, que incentivou todas. O jornalista que abriu a porta para tanta gente passar. Era o criador daquele grupo.

Naquela noite, há dez anos, a obra de José Trajano na ESPN Brasil atingiu seu ponto máximo. Ele foi o último a falar. Quem estava lá ainda ouve as palmas. 



  • Pedro Valadares

    Texto sensacional e emocionante. Parabéns.

  • Giuliano Gagliardi

    André, sua narrativa do fato, fez que ao final do texto, até a gente conseguisse ouvir as palmas, palmas que vira e mexe, eu sozinho em casa, acabo soltando quando ouço o Zé falando, independente do tema.

  • Alisson Sbrana

    Que texto!

    Não sei como é para quem trabalha aí na Espn. Para um “fã do esporte” é um desânimo. Ainda temos o Juca lá… Tem muita gente boa, eu sei. Mas dá um desânimo.

    A notícia que corre é que ele foi demitido por conta de suas posições políticas. Não sei o que é pior: demitir um trajano (no singular, como se fosse um adjetivo), ou justificar uma demissão por posições políticas.

    O que será do Linha de Passe? Como assistir à melhor mesa de discussão de futebol sabendo que dali foi demitido um dos maiores trajanos?

    Dá um desânimo.

  • Zeca Bloise Jr.

    Arrepiante

  • Anna Barros

    Lindo texto. Trajano é gênio! Fiquei ouvindo as palmas durante muito tempo.

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