No LANCE de hoje 



ESTREITO

O estabelecimento de Palmeiras e Flamengo como favoritos ao título do Campeonato Brasileiro tem levado a comparações entre os estilos dos times de Cuca e Zé Ricardo. Não é necessário fazer uma análise profunda ou recorrer a programas de ilustração tática – nada contra eles, obviamente – para identificar as formas como cada um procura vencer. O líder é mais agressivo como mandante, marca alto e procura jogar longe de sua área; fora do Allianz Parque, recua para se defender e ter campo para contragolpear. O vice-líder mantém a mesma postura independentemente do local, se organiza a partir da posse e prefere jogadas trabalhadas.

Em uma palavra, se fosse possível descrever times de futebol de maneira tão sucinta: o Palmeiras é direto, o Flamengo é elaborado. A escolha do modelo de atuação por parte de cada treinador está relacionada às suas preferências, a seu nível de experimentação do jogo e, claro, aos futebolistas que possui. A avaliação dessas escolhas evidentemente deve passar pela correta compreensão do que se pretende, o que também depende de conhecimento. Mas quanto a uma impressão a respeito de estilos, apenas no sentido do que agrada ou desagrada, o debate chega ao terrritório do gosto pessoal e das sensações que o futebol é capaz de provocar.

Neste âmbito, uma característica do Palmeiras de Cuca tem evocado certo puritanismo, como se afrontasse a liturgia do jogo: o lateral cobrado diretamente para a grande área. Há quem veja na estratégia um recurso que empobrece o futebol, algo do que times que se prezam deveriam se envergonhar, a exemplo, talvez, de tentativas de ludibriar a arbitragem ou desperdiçar tempo (expedientes que, frise-se, são condutas de antijogo que devem ser combatidas). Qual é a razão da condenação de uma ação simples para levar a bola pelo alto às proximidades do gol adversário?

O meiocampista Moisés – ótimo jogador – é o cobrador designado de laterais próximos à área do oponente. Dotado de habilidade e força para a tarefa, ele converte esse tipo de lance em mini-escanteios, que, como parte da preparação de jogos, têm o claro objetivo de gerar ocasiões de gol. É um mecanismo de jogada aérea ofensiva absolutamente legítimo, tal qual o escanteio curto ou os lances ensaiados de bola parada. Não há nada que desabone um técnico ou seu time por utilizar um meio, pouco convencional, de fato, para tentar marcar um gol de cabeça ou produto de rebote na área. O apelo ao espírito do jogo não faz sentido.

Não é o caso, mas suponha que Cuca (que usava essa jogada no Atlético Mineiro, em 2013, com Marcos Rocha) opte pelo lateral direto para a área para solucionar uma carência de repertório do Palmeiras. Não seria uma forma de camuflar um defeito do time, obrigação de todo técnico? Bolas erguidas na direção do gol fazem parte do cardápio de incontáveis equipes, com distintas construções e objetivos. Pep Guardiola, no Bayern, trabalhava jogadas áereas para o cabeceio de atacantes altos e posicionava jogadores próximos à meia-lua para aproveitar a segunda bola. Essa ideia foi responsável por muitos gols, embora iluminados a classificassem como “chuveirinhos”.

Leitores mais atentos lembrarão do último clássico entre Barcelona e Real Madrid, em abril, no Camp Nou, quando Gareth Bale lançou duas cobranças de lateral na área do rival. Teria sido uma ofensa ao jogo imaculado, logo na partida que reúne a maior quantidade de jogadores extraordinários que o futebol pode proporcionar? As dimensões do campo no estádio catalão, 105m x 68m, são as mesmas do Allianz Parque e dos demais gramados brasileiros, padronizados pela CBF. São as medidas consideradas ideais também na Bundesliga, na Premier League e na Liga dos Campeões da Uefa. Não é o campo que é estreito, mas o raciocínio que critica uma cobrança de lateral

(publicada em 26/9/2016, no LANCE!)



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