Coluna Dominical 



BOLETO

A mais alta instância da Justiça da Alemanha tomou uma medida que pode ter reflexos em campeonatos de futebol ao redor do mundo. Atendendo a um recurso do Colônia, a corte alemã decidiu que é direito dos clubes de futebol cobrar indenizações de torcedores responsáveis por multas aplicadas a eles, por causa de violações das regras de comportamento nos estádios. É mais um exemplo do país que dá frequentes lições de “experiência de estádio” no futebol.

O caso em questão é de um jogo da segunda divisão do Campeonato Alemão de 2014, entre Colônia e Paderborn, no RheinEnergie Stadion. Um torcedor do Colônia atirou uma espécie de rojão na direção da torcida rival, abaixo do setor onde ele estava. Na explosão, sete pessoas foram atingidas e duas sofreram lesões graves na cabeça. O clube foi multado pela Federação Alemã em 50 mil euros pelo incidente e teve de gastar mais 30 mil na prevenção desse tipo de situação.

O torcedor, um homem de 41 anos, foi identificado, julgado e condenado a dezoito meses de prisão, além de pagar uma multa de 4 mil euros. O Colônia foi à Justiça para lhe cobrar 30 mil euros em ressarcimento. Um tribunal distrital deu razão ao clube, mas o recurso do torcedor foi aceito em segunda instância (como contexto: em sua defesa, o torcedor alegou que o clube poderia ter evitado o episódio se o tivesse retirado do estádio por ter jogado um cigarro aceso na torcida visitante, pouco antes de acender o explosivo). Por sua vez, o Colônia recorreu e venceu.

Resta saber apenas qual será o valor que o clube receberá de volta. A justiça alemã entendeu que há uma relação legal entre a desobediência ao regulamento dos estádios e as multas impostas aos clubes, o que permite que a má conduta seja penalizada com indenização. É uma decisão significativa em nome da segurança das pessoas dentro dos estádios de futebol, por obrigar o torcedor mal-intencionado a recalcular as consequências de seus atos. O precedente aberto nesta semana foi comemorado pelos clubes do país, onde problemas com fogos de artifício e sinalizadores são comuns.

Sim, as diferenças estruturais entre o futebol alemão e o brasileiro talvez sejam comparáveis à distância entre os dois países. A forma como a lei é aplicada lá e aqui evidentemente também é uma questão que tem de ser considerada. Mas esse caso demonstra uma nova faceta do modelo que produz os estádios mais ocupados do futebol mundial, um mérito que deveria ser perseguido por todos os países onde o jogo é importante.

A cada episódio de baderna em estádios brasileiros, discute-se a responsabilidade dos clubes – que alegam ser impossível controlar a todos – e o caráter preventivo que esse mecanismo pode ter. Ao saber que prejudicará o time pelo qual diz torcer, ainda que muitos sejam incapazes de processar tal relação, o bagrecéfalo seria contido em sua própria imbecilidade. Pois na Alemanha, agora, a punição ao clube pelo ato de um torcedor pode ser reencaminhada a ele, além das necessárias complicações criminais. É uma camada extra de proteção.

JUVENTUDE

Ofuscada pela crise no São Paulo, a classificação do Juventude para as quartas de final da Copa do Brasil precisa da devida valorização. Alguns podem ter estranhado a festa no estádio Alfredo Jaconi após a derrota que significou vitória no confronto, celebração em que o goleiro Elias correu pelo gramado segurando uma bandeira do clube. Típica cena de conquista de título. Para compreender, basta notar que não há nenhum clube da série B entre os oito que seguem disputando a Copa do Brasil, mas há um da Série C. Parte da aparição do Juventude nas quartas de final se deve ao encontro com um time enfermo, mas, mesmo assim, a distância de orçamentos torna esse tipo de surpresa um evento muito improvável. O Juventude eliminou o São Paulo sem ser violento, sem praticar antifutebol. Não é algo que se vê todos os dias.

(publicada em 24/9/2016, no LANCE!)



  • Rodrigo de Alencar

    Fabuloso. Joga a favor disso o facto de a Jurisprudência de tribunais alemães serem referência em uma série de países, inclusive (se não me engano) aqui no Brasil.

MaisRecentes

Acordo



Continue Lendo

Futilidade



Continue Lendo

Incoerente



Continue Lendo