No LANCE! de hoje



HUMANOS

Um trecho adiantado da biografia de Andrés Iniesta, lançada há alguns dias na Europa, revela a angústia do genial meiocampista espanhol ao enfrentar um adversário imune à sua inteligência futebolística e capacidade de tomar quase sempre a decisão correta. Em 2010, uma estranha sensação de que nada estava no lugar certo o assombrou durante o período anterior à Copa do Mundo da África do Sul, torneio em que marcou o gol mais importante de sua carreira.

Em uma entrevista publicada pelo jornal britânico The Guardian, Iniesta disse que uma sequência de lesões e de tentativas frustradas de recuperar a forma habitual o levaram a procurar auxílio psicológico. Os estigmas relacionados a essas “admissões de fraqueza”, especialmente no meio esportivo, o convenceram a não falar sobre o assunto, em público ou com seus companheiros de clube e seleção. Ele não apenas tinha perdido sua identidade, como também não conseguia se sentir um jogador de futebol.

“Há momentos em que sua mente fica muito vulnerável”, disse Iniesta ao Guardian. “Você tem muitas dúvidas. Cada pessoa é diferente. O que tento explicar é que você pode estar bem e passar a estar mal muito rápido”, contou. Iniesta se sentia vítima de algo que o aterrorizava. Como se tivesse perdido o contato com os caminhos que percorreu durante toda a vida, e, de repente, fosse obrigado a lidar com forças muito maiores do que ele. Um sentimento de total descontrole que o levou a recorrer às pessoas próximas e ao futebol, acima de tudo. Deixar de jogar não lhe passou pela cabeça.

Iniesta declarou ao jornal britânico que sua intenção ao falar sobre esse momento não é provocar compaixão. “É que alguns elementos da vida de um futebolista, os sentimentos, as dificuldades, são como os de qualquer um. A vida das pessoas é assim. Eu não acho que sou uma exceção”, explicou. A noção de que esportistas bem sucedidos são seres intocáveis, livres dos assuntos que afetam a rotina de todos nós, constrói uma imagem de invulnerabilidade que expõe aqueles que a desafiam. Às portas de uma Copa do Mundo, o sonho que poderia resgatá-lo, seu nível de confiança era inexistente.

A situação chegou ao extremo de, já na África do Sul, os fisioterapeutas que cuidavam de Iniesta resolverem ativar sua capacidade emocional. DVDs foram gravados com momentos marcantes de sua carreira, e mostrados a ele de forma a motivá-lo com sentimentos. Seu corpo estava em condições de suportar um Mundial, era sua mente fragilizada que necessitava de suporte. Quem lembra das atuações de Iniesta naquele torneio pode ter dificuldade para crer que, na madrugada antes da final, enquanto todos dormiam, ele saiu de seu quarto para correr e só parou quando se convenceu de que era capaz. O artigo do Guardian traz essa revelação.

O aspecto humano da trajetória de um atleta é muito mais importante do que se imagina e muito menos considerado do que deveria. A história de Andrés Iniesta se torna ainda mais admirável a partir do momento em que o identificamos como um de nós, e calculamos o que ele teve de enfrentar para se tornar um futebolista único.

INTELIGÊNCIA

Em entrevista recente ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, o levantador Bruno Rezende deu detalhes de como um trabalho de “coaching” o ajudou a entender melhor suas emoções e descobrir a maneira correta de lidar com elas durante os jogos, para o benefíco de seu time. A preparação psicológica parece ser mais respeitada e difundida em esportes como o vôlei, que estão à frente do futebol em tantas questões.

SESSÃO ESPECIAL

Quarta-feira, 14 de setembro, 21h45, no Allianz Parque: data, hora e local da primeira grande decisão do Campeonato Brasileiro de 2016. Palmeiras e Flamengo prometem um desses jogos dos quais nos lembramos por muito tempo.

(publicada em 12/9/2016, no LANCE!)



  • Alisson Sbrana

    É fácil lembrar Ronaldo antes da final de 98.

    É fácil lembrar também quantos jogos importantes “perdemos” para o despreparo psicológico. O time treinado por Dunga, em 2010, por exemplo, não era capaz de suportar um mínimo de pressão dentro de campo. Nem falemos em 2014, por favor.

    Lembro de vários jogadores que se perderam no caminho. Como o Keirrison, talvez mais complicado analisar (toda solidariedade a ele para suportar a tragédia que se abateu na vida particular nos últimos tempos), pois sua ascensão foi tão meteórica quanto a desproporcional queda no desempenho que, acho que foi o Tostão quem escreveu, talvez o “errado” fosse a época da ascensão, e não a época do baixo desempenho.

    E lembrando disso tudo, faço aqui mais uma exaltação ao Neymar (sou santista, já fiz várias), que convive com uma dose incomparável de pressão desde os 14 anos (ou menos) e, embora fora de campo ele tenha dado sinais de que nem tudo são flores, dentro do jogo, até hoje, tem só confirmado sua assinatura como melhor jogador brasileiro de sua geração (opa, mais uma hipérbole para ele se preocupar?).

    E ver o Iniesta jogar é tão prazeroso quanto era ver o Zidane em campo.

    Abraço.

  • Paulo Pinheiro

    André, alguma palavra sobre a decisão estapafúrdia do STJD?
    Sim, digo estapafúrdia porque a organizada do Palmeiras foi lá em Brasília e fez baderna e a grande “punição” do Palmeiras foi ser desobrigado de ceder 10% de sua carga de ingressos à torcida adversária. Por acaso a mesma do jogo de ida. Por acaso um adversário direto. É como diz o Mércio:
    “Festa monstruosa no Galeão,
    recepção calorosa em Congonhas, com direito a uma cena curiosa no Rio,
    em que um torcedor repreendeu o outro por acender um sinalizador no
    aeroporto. Muito bom. Prova de que o povo realmente estava se sentindo
    na arquibancada. Só faltava agora inventarem do Flamengo perder o mando
    de aeroporto e ter que embarcar em uma distância superior a 100 km da
    Gávea. Não duvido mais de nada.”

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