Coluna Dominical 



HOUSE OF (RED) CARDS

Dirigentes se reúnem para discutir o estado e os rumos do futebol brasileiro; concluem que está tudo bem. Dirigentes se reúnem para se posicionar politicamente na estrutura de administração do futebol brasileiro; fazem o que lhes é determinado pelo poder. Dirigentes se reúnem para formar uma associação de clubes; são incapazes de entrar em acordo. Dirigentes consideram seus clubes prejudicados pela arbitragem, ou por decisões da estrutura que poderiam alterar; reclamam como se fossem meros observadores do espetáculo.

Não é necessário lembrar a quem presta atenção, mas não custa: Modesto Roma Júnior, presidente do Santos, foi um dos cartolas presentes a uma reunião na Federação Paulista de Futebol, no início de dezembro do ano passado. O encontro serviu para que os “clubes paulistas” decidissem como se comportariam diante da candidatura do coronel Nunes à vice-presidência da CBF. Após quatro horas de conversa, eles resolveram apoiar, unanimemente, a eleição do cartola que permitiu a Marco Polo Del Nero seguir operando na ex-sede José Maria Marin.

O voto dos paulistas estava acompanhado de uma lista de exigências encaminhada à CBF, em nome da autonomia dos clubes nas questões relativas aos campeonatos de futebol no país. Direitos de transmissão, patrocínios de competições e comando da arbitragem eram os principais temas. Nunes foi eleito, o Marco Polo que não viaja voltou, o tempo passou e a situação permaneceu rigorosamente igual. Meses mais tarde, após uma noite em que o Santos foi vítima de uma expulsão hedionda no Beira-Rio, Roma Júnior parece acreditar que seus protestos veementes serão levados a sério. Obviamente não serão.

Além do círculo perverso que abre esta coluna, há outro, já em curso, que colabora para a manutenção desse estado de coisas. O árbitro Rodrigo Batista Raposo – com quem o clube mandante sempre vence – será temporariamente afastado por fabricar a exclusão de Lucas Lima no primeiro tempo do jogo contra o Internacional. O Santos se sentirá respaldado pelo mesmo comando de arbitragem que criticou, e assistirá, em silêncio, a outros clubes passarem por situações similares. Pior: em uma ocasião que não tardará a acontecer, será o próprio Santos o beneficiado por um equívoco do apito. E o silêncio não será quebrado.

Porque a agenda política do futebol brasileiro determina uma série de comportamentos, entre os quais está o bom relacionamento com a Barra da Tijuca como seguro para não ter de lidar com arbitragens maliciosas. Um cenário que pode não ser tão maquiavélico, mas, na dúvida, é melhor não correr o risco. Um modelo de influência que faz de Sérgio Corrêa da Silva uma espécie de Doug Stamper da bola nacional, uma presença que você não quer a seu lado, menos ainda ao lado dos seus adversários. O presidente da Comissão de Arbitragem da CBF controla quem pode decidir o destino de jogos.

As perguntas já estão ficando velhas: por que os clubes do futebol brasileiro se sujeitam a isso? Por que aceitam o carrossel de prejudicados que não para de girar? Por que promovem shows de falsa indignação? Por que não se mexem?

ÚNICA SOLUÇÃO

A propósito (e quem frequenta esta contracapa sabe que o assunto aqui é antigo): é triste lembrar que, com a arbitragem eletrônica, apitadores não poderão fazer o que bem entenderem com jogos de futebol. A suposição de que são proprietários do campo estimula comportamentos prepotentes, policialescos, como se vê com tanta frequência no Brasil. E a revisão de expulsões submeterá as decisões do árbitro a um confronto com o vídeo, o que, ao menos, dá ao jogo uma chance de não ser violentado. Não há outra solução. No caso em questão: a orientação da Comissão de Arbitragem brasileira para situações de “cera” é acrescentar tempo ao jogo. O árbitro de Internacional x Santos não a obedeceu.

(publicada em 10/9/2016, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    Sim, é importante os árbitros seguirem as recomendações da Comissão.
    Mas ainda acho que cera tem que ser punida com cartão também.
    O espectador paga o ingresso pra ver um partida de futebol e não folgado fazendo palhaçada.
    E os efeitos da polêmica sobre a decisão do árbitro de Internacional x Santos já se fizeram sentir hoje na partida de Grêmio x Palmeiras. O Zé Roberto abusou da cêra, ameaçando e refugando cobranças de lateral. E o árbitro nada. O goleiro do Palmeiras acabou por tomar um cartão ao fim da partida, mas depois de muuuuuuuitas vezes atrasar a saída de bola. É esse o futebol que queremos?

  • Café Lima

    Boa tarde, André.

    Acompanho sua luta pela ajuda eletrônica na arbitragem e da qual sou fiel partidário.

    Outro dia fiquei pensando em mudanças nas regras do futebol, mas um exercício teórico do que uma possibilidade palpável:

    As expulsões, mesmo as justas, alteram de forma quase obrigatória os rumos de uma partida. Na maioria esmagadora dos esportes que eu conheço e acompanho, as exclusões de um jogador não penalizam o seu time pelo restante da partida. Por que, no futebol, um time ainda é punido a jogar os minutos restantes da partida com um jogador a menos?

    E se, por exemplo, a expulsão durasse 15 minutos e depois desse tempo um jogador “substituísse” o jogador que recebeu o vermelho (desde que ainda houvesse substituições por fazer? Que o jogador pegue uma pena mais pesada pela expulsão, sem prejudicar o time e, principalmente, o jogo.

    Trazendo a questão para o assunto do post, na minha opinião, é na aplicação dos cartões vermelhos que os árbitros mais influenciam uma partida. Mesmo um pênalti mal marcado ou um gol irregular, em que se pese a importância dos gols em uma partida, não punem um dos times a jogar desigualmente contra o outro.

    Grande abraço

    • nilton

      Apoio total a arbitragem eletrônica.
      Com relação a cera, alteraria para 2 tempo de 30 min de bola rolando, com um intervalo de 3 min entre cada tempo para hidratação e orientação e para a TV faturar.
      Com relação aos cartões, amarelo o jogador ficaria fora por 5 min. sendo substituído por outro.
      Substituição aumentaria para 5 podendo os jogadores retornarem.
      E o principal, na semana que a seleção joga apenas jogos das Serie C e D.

  • Edouard

    A orientação é essa e, para que o campeonato seja justo, ela deve ser observada. Mas podemos discutir em tese se essa é a melhor solução. Falando em hipótese (eu não vi, em tempo corrido, o lance envolvendo o jogador do Santos), se o jogador se convence de que o árbitro “não vai ter coragem” de apresentar um segundo CA em caso de cera, como evitar o problema? Acrescentar tempo ao jogo pode ser problemático. Suponha que um time passe 75 minutos do jogo fazendo cera porque o placar lhe favorece. No minuto 76, esse time toma um gol que inverte a situação. Quando chegamos ao minuto 90, o árbitro sinaliza 5 minutos de acréscimo, período em que o time infrator consegue o resultado que lhe interessa. Você concorda que, num cenário assim, o time se beneficiou da própria conduta antidesportiva? Sempre penso que, para evolução, o esporte mereceria a criação de alguma sanção disciplinar coletiva, como, sei lá, a perda de uma substituição, a possibilidade de que o time adversário cobre laterais com o pé, a exclusão temporária de um dado jogador, não sei. Um abraço.

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