É só o começo



A ênfase foi tamanha no “duelo pessoal” entre Mourinho e Guardiola, que convém ressaltar os dois cumprimentos entre os técnicos no dérbi de Manchester: antes, um sorridente Mourinho, no papel de anfitrião, em um semi-abraço em Pep; depois, fisionomias contidas, em um “até a próxima” que se repetirá ao menos duas vezes por ano durante três temporadas. 

Além de uma ameaça ao que de fato importa, a quantidade de tempo e tinta investidos na rivalidade entre eles parece ser dramaturgia exagerada. Enquanto se tenta transmitir um clima de animosidade, Guardiola revelou que conversou normalmente com Mourinho no recente encontro de técnicos da Premier League. O primeiro enfrentamento no Campeonato Inglês se deu em um ambiente de menor tensão fora do campo. 

A narrativa do “duelo de estilos” também erra na dose. Sim, Mourinho e Guardiola pregam ideias de futebol distintas na essência, mas seus encontros não são eventos especiais em que tais ideologias se chocam. Pelo simples fato de não haver muitos outros times – especialmente neste nível – que praticam o tipo de jogo que o City apresenta hoje. 

Guardiola é a diferença e, quando seus times jogam, do outro lado sempre haverá um plano “oposto”. A presença de Mourinho realça o perfil do evento, relembra os dias neuróticos na Liga Espanhola, oferece muito a se dizer e escrever sobre o que não pisa no gramado. Mas no que se refere a futebol, é o de sempre.

Esperava-se um jogo com mais possibilidades para o Manchester United. O sistema de Mourinho é menos elaborado e requer menos tempo para ser compreendido e aplicado com bons resultados competitivos. O foco na precipitação e exploração do erro do oponente parecia promissor diante de um time naturalmente mais propenso a falhar. 

No entanto, em um primeiro tempo exuberante, o City moveu a bola com precisão e velocidade espantosas, dominando o rival em seu próprio estádio e construindo uma vantagem de 2 x 0 que, se não foi pequena pelo volume produzido, certamente refletiu o desequilíbrio em campo. 

Clara ideia do que fazer, e como. Futebol fluido e técnico. Associação permanente, recuperação quase imediata. E gols. O City mostrou o que se costuma ver de um time dirigido por Guardiola, sem dar indícios de que o trabalho começou há apenas dois meses. A diferença em relação à temporada passada é tão evidente que o “argumento” de que o técnico catalão “só pega equipes prontas” – além de falta de conhecimento, uma esquizofrenia no ponto de vista futebolístico – deve passar algum tempo submersa, aguardando as derrotas que fatalmente virão. 

Muito se falará sobre o gol de De Bruyne, produto de uma bola longa da defesa e desviada pelo alto para a finalização do belga. “Futebol anti-Pep”, dirão. Equívoco. Crenças fundamentalistas não se aplicam a um jogo em que agregar conceitos leva a diferentes formas de atuação. A variação contribui para o engano e diminui a previsibilidade. Guardiola usou o contra-ataque no Bayern, investiu na bola longa nos confrontos com o Borussia Dortmund, e declarou que pretendia adaptar-se ao futebol na Inglaterra. 

O gol de Ibrahimovic, servindo-se de uma falha de Claudio Bravo, injetou competitividade em um jogo que até então era unidimensional. O goleiro chileno pode se considerar afortunado por ver apenas um de seus muitos equívocos ser punido. Mas a leitura sobre sua atuação deve ser feita com base no que a motivou. 

A análise correta não é a afirmação “Joe Hart não falharia tantas vezes em um jogo importante”, e sim a pergunta “Hart seria capaz de atuar como o décimo-primeiro jogador de linha?”. A resposta é não e, dessa forma, o Manchester City não estaria habilitado a controlar as ações como fez na primeira metade do clássico. 

Fortalecido pelas substituições feitas por Mourinho, o Manchester United equilibrou o encontro no segundo tempo e conseguiu desconcertar a circulação do City, que pareceu, por momentos, receoso em relação a como confrontar o ímpeto do rival. Se houve um defeito claro no time de Guardiola, foi a incapacidade de marcar o terceiro gol em um dos contragolpes que se apresentaram, o que propiciou um final de jogo emocionante pela possibilidade do empate a partir de bolas alçadas na área de Bravo. 

Mourinho criticou seus jogadores e reclamou da arbitragem, recorrendo a uma faceta de seu comportamento nas derrotas que parece ser parte de um modelo de jogo: contar com decisões do árbitro e culpá-lo por não tê-las tomado. Vindo de um técnico tão capaz e no comando de jogadores de qualidade indiscutível, a transferência de responsabilidade soa como tentativa de desviar o debate dos óbvios aspectos de jogo em que seu time foi superado em casa. 

Ainda é muito cedo, claro. Principalmente para restringir a corrida pelo título inglês à cidade de Manchester. E mesmo em um exercício hipotético que só considera o City e o United, o resultado deste sábado importa pouco. 

O troféu não será decidido pelo que acontecer entre eles, mas pelo que cada um fizer contra os outros. Pelo que cada um conseguir longe de suas casas, em campos enlameados pela chuva, em tardes e noites marcadas pelo vento cortante que acompanha as baixas temperaturas na ilha. 

A Premier League também é isso, e, para ser bem sucedido nesse tipo de ambiente, o futebol de Mourinho sofre menos do que o de Guardiola. Embora a vitória de hoje tenha apresentado uma equipe mais avançada do que se aguardava tendo em vista o jogo sofisticado que o City pretende praticar, o trabalho de Pep está apenas começando. 



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