Coluna Dominical 



PREPARADO

Na noite de 4 de julho de 2012, eterna para os corintianos, Tite abriu a porta de seu apartamento na zona leste de São Paulo bem depois que o calendário já anunciava o dia seguinte. Rose, sua mulher há quase trinta e dois anos, estava acordada. Eles se sentaram à mesa na copa, abriram uma garrafa de champanhe e choraram. Assim ficaram por horas, em conversas que visitaram Caxias do Sul, várias outras cidades gaúchas, Campinas, São Paulo, Belo Horizonte e os Emirados Árabes Unidos. Sorrindo e chorando.

Quando o técnico da Seleção Brasileira diz que se preparou muito para ocupar sua posição atual, refere-se a uma trajetória marcada por sentimentos impossíveis de verbalizar sem ser derrotado por suas emoções. Quando diz que chorou ao telefone com Rose, como fez após a vitória do Brasil sobre o Equador, menciona a pura verdade, além de um acontecimento frequente em sua carreira. O que o conecta à profissão que escolheu – e o que faz deste momento algo difícil de descrever – são sensações muito, mas muito profundas. Ao entrar nesse território em entrevistas ou conversas com quem lhe é próximo, é fácil notar o esforço para controlar o que sente.

Tite não é uma pessoa sofisticada como Carlo Ancelotti, seu modelo de técnico pela capacidade do italiano de trabalhar em diversas configurações e pela fina sintonia, do ponto de vista humano, para extrair o melhor de cada jogador sob seu comando. Mas sua relação com o ofício de treinador de futebol o levou a um movimento profissional que raramente se vê em um ambiente autorreferente e contaminado pela vaidade excessiva. De fato, o investimento que Tite fez na própria carreira não é comum mesmo quando se abre o leque para outras atividades.

Ele tinha 53 anos quando deixou o Corinthians após um período de glórias até então inalcançadas. Saboreava o ápice de sua caminhada e já não lidava – há muito tempo não lida – com preocupações financeiras em relação à tranquilidade de sua família ou à conclusão da formação de seus filhos. Sabia que o telefone não permaneceria em silêncio por muito tempo e que, embora fosse difícil escolher onde, quando e como voltaria a trabalhar, o campo o chamaria cedo ou tarde. Descansou, acompanhou a Copa de 2014 dentro dos estádios brasileiros com um bloco e uma caneta à mão. Decidiu que, no momento em que entrasse novamente em um vestiário, seria um técnico mais moderno, mais capaz, mais habilidoso.

O nível da preparação da nova comissão técnica da Seleção Brasileira para os jogos contra Equador e Colômbia (o fichário nas mãos do assistente Cléber Xavier, com informações e fotos para ilustrar o que se pede aos jogadores, é apenas uma amostra) é insano e reflete um técnico trabalhando em seu sonho. O que se viu em Quito em termos de organização coletiva, após três sessões de treinos, é o início desse trabalho, convertido em competição. Mas há mais acontecendo no aspecto das relações dentro da Seleção, processos que, embora invisíveis, também entram em campo.

Tarde da noite de quinta-feira, enquanto navegava pela fila de mensagens que recebeu durante e após sua estreia, Tite já estava preocupado. Atuações e resultados superiores ao que se espera costumam gerar sensações corrosivas a trabalhos que ainda engatinham. Uma decepção contra a Colômbia, na próxima terça, em Manaus, terá o efeito de “selecionar tudo” e “apagar” sobre os 3 x 0 em Quito, além de gerar uma conversa telefônica em outro clima com Rose. Tite não quer passar por isso, mas essa é, também, uma situação para a qual ele está preparado.

COMEÇO…

Gabriel Jesus atacou o espaço, como faz no Palmeiras, na jogada em que sofreu pênalti. O segundo gol foi construído pela triangulação entre Phillippe Coutinho, Neymar e Marcelo, na ponta esquerda. E o terceiro foi produto de nove passes, começando com Alisson, no outro extremo do campo. Conceitos e gols.

(publicada em 3/9/2016, no LANCE!)



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