No LANCE! de hoje 



CRIMINOSOS

A ideia de que jogadores de futebol devem ser tratados como animais desobedientes é uma imbecilidade disseminada no Brasil. Dirigentes ultrapassados e/ou incapazes, que administram clubes como se fossem fazendas improdutivas, operam assim. Figuras “da mídia”, que se utilizam das redes antissociais para divulgar opiniões incendiárias como se não tivessem a obrigação de ser responsáveis, comportam-se assim. Acéfalos que se consideram vigilantes dos clubes pelos quais dizem torcer, como se os jogadores que vestem a camisa lhes devessem satisfação, efetivamente agem assim.

É uma noção preconceituosa que enxerga o castigo por mau comportamento como uma consequência natural em um ambiente que se julga profissional. Uma visão distorcida que relaciona a remuneração de futebolistas privilegiados à necessidade de satisfazer os desejos de quem não tem condições de avaliar seu desempenho. Um aspecto da “cultura” do futebol brasileiro, que faz com que desocupados disfarçados de torcedores julguem que jogadores devem representá-los. Uma prática criminosa que se repete graças à postura medrosa de cartolas, à complacência das autoridades e à ineficiência da Justiça.

Lembremos de um exemplo aparentemente inofensivo; o caso do assessor da presidência do São Paulo que ofendeu jogadores do time pelo twitter, após um jogo da Copa Libertadores, em fevereiro. O episódio foi maquiado como uma explosão emocional de um apaixonado que, por coincidência, trabalhava no clube (a propósito, apenas para não perder a oportunidade: Rodrigo Caio, o “jogador de condomínio”, é campeão olímpico, joga na Seleção Brasileira e, em breve, estará na Europa…). Para quem realmente acredita nessa versão, as meias vermelhas continuam à espera do bom velhinho. Basta um pouco de vivência para notar uma pressão premeditada.

É um comportamento semelhante ao da personalidade pública – seja ela um cantor, um ator ou um ventríloquo decadente – que se veste de porta-voz do que as pessoas que não pensam, pensam. Gente que se presta ao constrangimento de defender invasões ao local de trabalho de jogadores, pois “o protesto é justo”, e garante que é contra “todo e qualquer tipo de violência”, como se uma coisa não levasse à outra e como se, em conversas privadas, não dissesse que “esses vagabundos têm mesmo que apanhar”. Há uma série de explicações para algo tão odioso: a sofrível formação pessoal, a inveja dos altos salários do futebol, a auto-referência como líderes de idiotas e, claro, o envolvimento político no clube.

É como se uma derrota para um time da Série C – ou qualquer outro resultado negativo, pois a vaidade do fanático só considera o que lhe convém – tornasse aceitável que se entre em uma propriedade particular para agredir jogadores e praticar furtos. Na mente do torcedor profissional, crimes cometidos em nome do que ele acha que pensa sobre seu time não são crimes, talvez até sejam atos de heroísmo. Note as selfies dentro do campo em que atletas deveriam estar treinando, os vídeos ao lado dos jogadores sendo pressionados tais quais bandidos surpreendidos em flagrante. É conteúdo para alimentação do próprio ego, prêmios em um mundo em que o vagabundo é o jogador que trabalha mal, não o devoto do “por amor ou por terror”.

Uma vez mais, a identificação dos envolvidos é possível e necessária para as punições devidas. Cumprida essa etapa, a seguinte será nomear quem estimulou, quem financiou, quem está por trás da barbaridade do sábado pela manhã. E seria muito importante que os jogadores tratados como cachorros finalmente se organizassem para dar um basta a essa “cultura”. Em fevereiro de 2014, um episódio semelhante aconteceu no Corinthians e levou a conversas sobre uma paralisação. O ambiente do futebol só avançará quando seus principais atores fizerem valer a própria importância.

(publicada em 29/8/2016, no LANCE!)

 
 
 



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