Coluna Dominical 



GOLEIRO-LINHA

Um sensacional mosaico de pessoas, fatos e informações foi montado pelo jornalista britânico Adam Bates, para contar a longa história por trás da contratação de Claudio Bravo pelo Manchester City. A peça foi construída em uma reportagem publicada nesta semana em www.skysports.com, com declarações de vários envolvidos na chegada do goleiro chileno ao time inglês, por desejo de Pep Guardiola. Em resumo, o movimento que levou Bravo ao City se iniciou antes dele nascer.

Há um personagem crucial na história: Frans Hoek, ex-futebolista holandês que se transformou em um guru da formação e preparação de goleiros, autor do “Método Hoek”, certificado pela Uefa. Ele é o elo que conecta as ideias de Johan Cruyff à produção de goleiros customizados para equipes que os enxergam como o décimo-primeiro jogador de linha, alguém com noções de posicionamento e habilidade com os pés para ser a origem de movimentos ofensivos.

Ao absorver os ensinamentos de Rinus Michels no grande time do Ajax da década de 60, Cruyff concluiu que a participação do goleiro no jogo coletivo de um time de futebol era mais importante do que sua capacidade de fazer defesas. Quando o gênio holandês iniciou sua carreira de técnico, no mesmo Ajax, em 1985/86, Hoek era o preparador de goleiros do time. Juntos, eles fizeram de Stanley Menzo o titular da equipe exatamente por sua capacidade de dominar e passar a bola.

Cruyff assumiu o Barcelona no final da década e formou o chamado “time dos sonhos” do clube, vencedor, entre outros títulos, da Copa dos Campeões em 1992. No meio de campo daquela equipe, Pep Guardiola e José Mari Bakero atuavam juntos. Frans Hoek permaneceu trabalhando na Holanda, juntando-se à comissão técnica de Louis Van Gaal no Ajax, em 1996. Bates conta que, naquele ano, Julio Rodríguez, um treinador de goleiros das categorias de base do Colo-Colo, viajou a Los Angeles para se encontrar com Hoek, durante uma turnê do Ajax pelos Estados Unidos.

Rodríguez revelou a Bates que conversou com Hoek sobre um jovem goleiro chileno. Aos 13 anos, Claudio Bravo era muito magro e baixo para o que se considerava ideal para a posição. O guru holandês lhe falou sobre seu protótipo de goleiros e convidou Rodríguez para estudar em seu país. A formação de Bravo como um “goleiro-linha” não teria sido possível sem a influência de Hoek, um processo fundamental no desenvolvimento da carreira profissional do camisa 1 da seleção chilena. Mas foi na etapa espanhola da trajetória de Bravo que o mosaico desenhado por Bates ganhou mais peças.

Bravo chegou à seleção de seu país aos 21 anos, na Copa América do Peru, em 2004. Dois anos depois, a Real Sociedad mandou olheiros avaliarem suas atuações em amistosos do Colo-Colo na Irlanda. Quem autorizou sua contratação foi o diretor esportivo do clube espanhol à época, o ‘cruyffista’ José Mari Bakero. Mas a experiência durou pouco. Bakero foi demitido durante a campanha do rebaixamento da Real Sociedad e Bravo perdeu a posição. Ele voltaria a ser aproveitado quando Juan Manuel Lillo, um dos mentores de Pep Guardiola, dirigiu o clube em 2008.

Lillo deixou a Real Sociedad após a temporada 2008/09, mas se reencontrou com Bravo cinco anos mais tarde, quando Jorge Sampaoli, discípulo de Guardiola, o chamou para fazer parte da comissão técnica da seleção do Chile. Àquela altura, Bravo já atuava no Barcelona, onde os conceitos de Cruyff permanecem em jogo. Quando Pep Guardiola precisou de um goleiro digno das visões de Frans Hoek para aplicar seu tipo de futebol no Manchester City, Claudio Bravo era exatamente o que ele procurava. O chileno chegou ao novo clube anteontem, concluindo uma viagem proporcionada por conceitos criados dezoito anos antes de seu nascimento.

(publicada em 27/8/2016, no LANCE!)
 



  • Alisson Sbrana

    Ah, que sensacional essa história!!! Muito obrigado por me apresentá-la.

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