No LANCE! de hoje



O VALOR DO OURO

Diante da galeria de títulos da Seleção Brasileira, a medalha de ouro do futebol olímpico é uma conquista menor. Mesmo diante da ausência dessa medalha até a noite de sábado, como “o título que faltava”, não é exagero dizer que a camisa da Seleção não precisava ser campeã olímpica para se sentir importante ou recuperar sua imagem. E não teria sido um desastre perder para a Alemanha no Maracanã lotado se o futebol brasileiro não tivesse um fetiche incurável pelo resultado.

Porque a seleção olímpica jogou como a Seleção Brasileira não joga faz tempo. Porque a Seleção Brasileira tem na seleção olímpica um caminho para voltar a jogar. Ganhar ou não ganhar nos pênaltis é uma circunstância que não substitui o que se fez enquanto a bola esteve em movimento, mas, no país que prefere o resultado ao jogo, uma derrota teria transformado uma chance de evolução em mais um trabalho descartável. A esperança de recuperar uma forma de jogar é o maior significado desta medalha.

Quem tem boa memória certamente se lembrará de como o Brasil foi eliminado da Copa América de 2015, no Chile. Empate em 1 x 1 com o Paraguai, proporcionado por um recuo medroso no segundo tempo, e derrota nos pênaltis. A mesma postura receosa e reticente marcou a desclassificação na Copa América do centenário, em junho, no jogo contra o Peru. Bastou um pouco de personalidade aos peruanos para desconcertar a Seleção no segundo tempo, até o infame gol com a mão de Ruidíaz. O segundo período sob Dunga se caracterizou por um futebol opaco, burocrático, individualizado.

Compare com a postura da seleção olímpica a partir do momento do gol de empate da Alemanha. Convidado a se desestabilizar diante da possibilidade de um velório no Maracanã, um time jovem tratou a ocasião com coragem e continuou pressionando o adversário mais organizado – o time C da Alemanha, sim, mas muito mais competente do que análises preguiçosas sugeriram – e pronto a usar o claro componente psicológico que se instalou. O Brasil esteve mais perto da vitória na prorrogação e mostrou notável compostura nas cobranças (Renato Augusto, Marquinhos, Rafinha, Luan e Neymar provavelmente bateram os pênaltis mais pesados de suas carreiras) que decidiram a medalha, com a intervenção de Weverton.

O que aconteceu no Maracanã foi bonito e importante, pois indicou uma mudança na relação do público com o time que tem a missão de representá-lo, um clima que começou a se desenhar ainda nos dias de preparação em Teresópolis. As vaias de todo o estádio quando os alemães tentaram esfriar o jogo, no segundo tempo extra, foram a resposta de quem percebeu, em campo, um time tentando ganhar e merecedor da ajuda. Claro, o ambiente olímpico contribuiu para uma atmosfera favorável, mas essa natureza de envolvimento coletivo não é um comportamento que se sustenta se não for espontâneo. A parceria com o torcedor, em um momento decisivo, deu suporte a um time que pratica futebol de ataque.

A vitória garantiu que a noite de sábado não foi apenas uma foto jogada em uma caixa e encaminhada à lixeira. Ela valida um trabalho diferente em conceitos, método e objetivos, embora os perpetuadores das narrativas de sempre estejam à disposição para desacreditar quem ousa falar sobre futebol de outra maneira. Dois empates sem gols foram suficientes para rotular Rogério Micale, vaiar Renato Augusto, condenar jogadores em início de carreira. Dois jogos de uma campanha de seis. Os dois primeiros jogos. Com critérios tão pobres, seria impossível avaliar corretamente a seleção olímpica se a Alemanha tivesse obtido mais uma conquista em um gramado brasileiro.

Por isso a medalha de ouro deve ser celebrada. Ela não é um respirador artificial para as figuras que se aproveitam do futebol no Brasil, mas um tubo de oxigênio para pessoas que, de fato, o fazem. É necessário valorizar o jogo

(publicada em 22/8/2016, no LANCE!) 

 

 

 

 

 



  • Gustavo Sordi

    Sempre concordo com suas análises (elas fazem faltas no canal ESPN), nessa eu concordo em partes. Conceitos e teorias muito animadoras, visando uma mudança no futebol, mas na prática não pode ser visto muita coisa. Talvez por falta de treino, de entrosamento, mas o futebol na maior porte do tempo continuou individualista, as vezes fazendo gol e mudando totalmente o jogo, as vezes não. Não quer dizer que o Micale não produza um ótimo estilo de jogo com o tempo, apenas que isso não foi visto em campo. Teve muita entrega, coragem, mas taticamente (não na disposição tática dos jogadores e sim no funcionamento) nada demais. Ao meu ver um dos “Gabrieis” deveria ter dado lugar a um meio campista.

    • André Kfouri

      Desculpe, o modelo ficou bem claro nos últimos 3 jogos.

      • Gustavo Sordi

        Desculpe eu, rs. Bom, eu vi um modelo, só não achei o ideal ou o que o discurso anterior indicava. Tomara que seja isso mesmo, espero o melhor, a evolução do futebol. Mudando de assunto, espero ler um post da sua opinião sobre a lista e o começo do trabalho do Tite (de novo, queria ver nos principais programas da ESPN, rs), me parece que ele vai fazer um trabalho parecido com o Corinthians 2015, começo seguro e posterior evolução (a 6ª colocação e pouco tempo de treino não colaboram). Abraços

        • André Kfouri

          Sim, é o que parece. Mas são situações muito diferentes e evidentemente a pressão é maior. Por incrível que pareça, Tite enfrentará um “dunguismo” que já se mobilizou para atacar a primeira convocação, sem esperar o primeiro treino. Imagine se o Brasil perder no Equador (onde não venceu os últimos quatro jogos)… Um abraço.

          • Gustavo Sordi

            Tarefa dificílima, opiniões sensatas terão de lutar por espaço também.

  • Alejjandro

    Ótimo texto! E digo mais: a seleção não jogava assim desde a final da Copa das Confederações de 2005! Grande abraço!

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