No LANCE! de hoje



O COITADO RYAN

Então foi uma história inventada para encobrir uma imbecilidade na madrugada carioca. Ryan Lochte e seus amigos nadadores acharam que, apesar das câmeras de segurança, das versões contraditórias e dos depoimentos de quem estava no local, a mentira se transformaria em verdade apenas porque foi contada por atletas americanos em visita a um país atrasado. Uma farsa é uma farsa independentemente de onde aconteça, do perfil dos envolvidos ou da quantidade de ocasiões em que alguém apareceu para limpar a sujeira que fizeram. Desta vez, porém, a descarga não funcionou.

O pedido de desculpas de Lochte – se é que pode ser qualificado assim – não menciona que ele mentiu, obviamente por orientação “do jurídico”. Dizer que deveria ter sido “mais cuidadoso e sincero ao descrever os eventos” nem começa a avaliar o comportamento de alguém que 1) quebrou objetos em um banheiro de posto de gasolina, 2) alterado, tentou ir embora sem pagar, 3) foi abordado pela segurança do estabelecimento, 4) criou uma fantasia sobre ter sido assaltado por falsos policiais e 5) deixou o país antes da história explodir no colo dos parceiros de balada.

As imagens de uma das câmeras de vigilância do posto mostram os nadadores sentados no chão, diante de um homem com uma das mãos na cintura. Em depoimento à polícia, o segurança disse que foi a maneira encontrada para controlar quatro atletas agitados em uma situação de difícil comunicação por causa dos idiomas diferentes. Parece razoável. Mesmo quem pensa de outra forma haverá de concordar que converter essa cena em um assalto à mão armada, após falsa blitz, é um exagero criativo. E aí está o grave equívoco cometido por Lochte e sua gangue, na tentativa frustrada de filmar mais uma sequência de “Se Beber, Não Case!” no Rio de Janeiro.

O aspecto mais cruel da mentira de Lochte é que ela é perfeitamente crível. Existem falsas blitzes nas cidades brasileiras, é um problema real. A possibilidade de algo dessa natureza acontecer com atletas olímpicos durante o período dos Jogos constitui um cenário mais do que assustador, primeiro pelo fato em si e depois pelo significado da repercussão externa em um momento em que o país é um dos principais geradores de notícias no mundo. Lochte se aproveitou de uma fragilidade da vida brasileira para encobrir seus próprios desvios de comportamento e defeitos de caráter. Todos acreditariam nele, e que se dane quem tem de lidar com essa modalidade de crime urbano. Fuck Brazil, bro.

Diferentemente do que se publicou fora do país, a reação local à farsa nada tem a ver com problemas de autoestima. E nem é, no sentido da principal fonte de indignação, uma questão de desrespeito à lei. É um esculacho que o Rio, o Brasil e a Olimpíada não merecem. Não é aceitável que se invente uma história sobre um dos dramas cotidianos da sociedade brasileira para que ela seja lembrada do que tem de enfrentar. É menos aceitável, ainda, a exposição ao constrangimento internacional por um episódio inteiramente construído pela burrice de um esportista famoso, acostumado a ter seus desejos atendidos sem questionamentos. A Polícia do Rio de Janeiro tem mais com que se preocupar, sim. A Justiça, também.

O último resquício de dignidade para Ryan Lochte – não que seja justificativa – residiria na versão de que havia duas mulheres no táxi, e que a mentira serviria para salvar o namoro de um dos nadadores. De fato, quem tem namorada é ele. Obviamente deu errado, pois, se foi assim, agora as moças também aparecerão (previsão: amanhã, na televisão aberta) e contarão ao mundo todos os detalhes que só uma pessoa não deveria saber. Os parceiros de Lochte, todos mais jovens, deveriam escolher melhor com quem andam. Ele tem trinta e dois anos e já passou da idade de aprender a pensar. Mas que durma tranquilo: não há problema de imagem que resista ao showbiz americano, essa máquina de idiotas milionários.

(publicada em 20/8/2016, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    André,

    Felizmente algo contrariou suas previsões. Ryan perdeu dois patrocinadores.

    Sem desejar o mal de ninguém, considero boa notícia. No mínimo representa um certo respeito ao nosso país a reação dos patrocinadores.

    • André Kfouri

      Não acho que contrariou, não. Acho que ele terá mais notícias desagradáveis como as de hoje. Minha “previsão” é que acabará em um reality show.

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