No LANCE! de hoje



DISFARCE

Uma arma na cabeça, apontada por um bandido disfarçado de policial, é uma característica tão própria da Olimpíada no Brasil quanto a formidável cerimônia de abertura ou os elogios à simpatia e à hospitalidade das pessoas. Inúmeros cariocas podem se identificar com a assustadora experiência de Ryan Lochte e outros três nadadores americanos, passageiros de um táxi interceptado por assaltantes na madrugada de ontem. Em outras metrópoles do país, o método pode ser diferente, mas a violência e a frequência são semelhantes.

A aflição com a segurança da “família olímpica” no Rio de Janeiro tem sido tema de reuniões do Comitê Olímpico Internacional desde que os Jogos começaram. Advertências como “os atletas estão nervosos e preocupados” foram lançadas na abertura do congresso da entidade, quando o presidente do COI, Thomas Bach, falou sobre o desafio de realizar a Olimpíada em “um país que atravessa uma crise econômica e política sem precedentes”. O episódio com Lochte, atleta de alto perfil, certamente não servirá para acalmar os ânimos nos gabinetes ou as mentes na Vila Olímpica.

O saldo do assalto aos nadadores americanos é rigorosamente igual ao de todos os acontecimentos dessa natureza que “terminaram bem”. Um susto colossal que deixará feridas psicológicas de profundidades variadas, mas tudo o que foi perdido se resume a dinheiro e objetos. Lochte e seus amigos certamente ouviram que “tiveram sorte”, pois poderia ser muito pior. Fato. Não diminui a gravidade do perigo a que todos estamos expostos nas ruas do Brasil, certos horários e locais piores do que outros, e nem pode ser usado como argumento para maquiar a percepção da realidade da Olimpíada no Rio. Mas, ao final, é o que de fato importa. Lochte foi vítima de um crime, felizmente não de uma tragédia.

Alguém dirá que os nadadores americanos aceitaram correr riscos ao sair da Vila Olímpica por conta própria para ir a uma festa, o que também é fato. A questão é que tipo de experiência se deseja oferecer aos atletas visitantes; uma que vende o medo (“não saiam da Vila”) ou uma que vende o Rio (“aproveitem, mas com cuidado”)? Ademais, foi o próprio comitê organizador dos Jogos quem declarou que a cidade seria a mais segura do mundo durante a Olimpíada, de modo que responsabilizar quem acreditou nisso é um irresponsável ato de cinismo. O maior risco está na propaganda do impossível: a suspensão da criminalidade em uma grande cidade brasileira por um período determinado.

Quem não pode se fazer de indignado é o COI, que sempre teve exata noção da aventura brasileira e sabe que, enquanto é viável imaginar um ambiente olímpico controlado, a cidade seguirá recebendo a todos com seus encantos e problemas. Reclamar agora soa ingênuo, porque obviamente inútil. Pode também soar falso, pois os senhores dos anéis têm pouco a temer. Hospedados nos melhores hotéis do Rio de Janeiro e protegidos por segurança particular ao sair para jantar, eles não precisam se preocupar com ladrões camuflados de policiais.

NERVOS

O nível de irritação da seleção brasileira foi o ponto negativo da atuação do sábado à noite. Especialmente por parte de Neymar, que se arriscou a desfalcar o time na sequência da Olimpíada. Confunde-se coragem com irresponsabilidade na tentativa de se estabelecer como aquele que fala mais alto, e se deixa de praticar futebol para punir o adversário violento com jogo. No caso de Neymar, é curiosa a diferença de comportamento em relação ao que se vê no Barcelona. Oponentes costumam tratá-lo com brutalidade, ao que ele responde com esperteza. Na seleção, perde a calma e procura o revide. Neymar é o jogador mais importante da seleção e o motivo pelo qual os adversários tentam desestabilizá-lo é evidente. Não há razão para assumir uma postura diferente da que mostra em seu clube, que também precisa dele para vencer.

(publicada em 15/8/2016, no LANCE!)



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