No LANCE! de hoje



SEGUNDO APENAS NO NOME

O Michael Phelps que hoje se despede dos Jogos Olímpicos é o mais humano de todos os modelos que conhecemos. Em Sydney 2000, com quinze anos, ele foi um estreante pouco notado. Em Atenas, já era um fenômeno capaz de conquistar oito medalhas, seis delas de ouro. Em Pequim, mais oito ouros converteram Phelps no maior nome da história olímpica e levaram o mundo a considerar se ele tinha brânquias em vez de pulmões. No Rio, aos trinta e um anos e pai de um menino, recordista de tudo o que se imagina, Phelps se vê distante de sua espécie e, ao mesmo tempo, mais próximo do resto de nós.

Ele tem conquistado medalhas desde que caiu na piscina carioca, com o mesmo ar de invencibilidade que o tornou tão temido nas raias ao lado. Mas os efeitos do esforço em sua expressão são mais evidentes ao final das provas, o tórax contraindo-se e expandindo com vigor. As lágrimas encontram mais facilmente o caminho para fora de seu corpo, talvez um reflexo direto da presença do filho, Boomer Robert, nas cadeiras. A exemplo dos adversários, a juventude ficou para trás, e Phelps sabe que sua extraordinária aventura está terminando. Também sabe como sua vida poderia ter tomado um caminho sem volta após Londres, quando perdeu o equilíbrio, os valores e o próprio sentido das coisas.

A memória que ele deixará é a de um destruidor de contextos. São tantas vitórias ao longo de dezesseis anos que as metas que, em tese, estão ao alcance dos melhores, deixaram de ter importância. Ryan Lochte, por exemplo, seria o nadador mais condecorado da natação olímpica se Phelps não existisse. Lochte tem doze medalhas, Phelps tem mais do que o dobro. É compreensível, portanto, que o maior atleta olímpico em todos os tempos tenha recorrido à criatividade ao estabelecer seus objetivos na despedida. Quando os feitos excêntricos estão no horizonte, é sinal de que um atleta alcançou a estratosfera do esporte.

Phelps queria ser o nadador mais velho a vencer uma prova individual nos Jogos. Conseguiu (Anthony Ervin o superou ao vencer os 50m livre, aos 35 anos, na sexta-feira à noite). Também queria recuperar o ouro nos 200 metros borboleta, perdido em Londres após vitórias em Atenas e Pequim. Feito. Larissa Latynina, lendária ginasta ucraniana das décadas de cinquenta e sessenta, superava Phelps em medalhas individuais quando a Olimpíada do Rio começou. Não mais. Esses exemplos podem parecer exageros estatísticos, e talvez sejam mesmo. Mas são produtos de uma carreira que arrasou com os meios convencionais de avaliação. E não são nada perto da quebra de um recorde que sobreviveu por mais de vinte e um séculos.

O corredor grego Leônidas de Rodes, protagonista das origens da história olímpica, ganhou doze provas individuais em quatro edições dos Jogos, entre os anos 164 e 152 antes de Cristo. A marca que o tornou célebre e lhe valeu uma coleção de coroas de folhas de azeitona durou aproximadamente 2168 anos, até ser superada por Phelps, na noite de anteontem. As braçadas de Phelps são tão impressionantes que atravessam eras e alcançam a Antiguidade. Hoje ele se posicionará no bloco pela última vez.

Michael Fred Phelps Segundo. Segundo apenas no nome.

PASSADOR

É equivocada a impressão de que, na goleada sobre a Dinamarca, a seleção olímpica precisou menos das intervenções de Neymar para construir a vitória. Costuma-se usar a palavra “dependência” como se as equipes que possuem jogadores fora de série fossem viciadas neles, quando na verdade trata-se de uma dinâmica absolutamente natural. A dificuldade real se verifica quando esses times recorrem a tais jogadores para solucionar problemas, ao invés de ativá-los para criar problemas. O histórico de Neymar na seleção principal apresenta diversas ocorrências dessa anomalia de jogo, causada pela ausência de modelos desenhados para que Neymar seja acionado nas situações em que ele pode desequilibrar. Contra os dinamarqueses, o que aconteceu foi a alternância de posições dos atacantes e a aparição de Neymar como passador.

(publicada em 13/8/2016, no LANCE!)



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