Falar é diferente de liderar



O nível de comprometimento de um jogador de futebol com os objetivos coletivos de seu time nada tem a ver com a quantidade de entrevistas que ele dá. Ou mesmo com os momentos que escolhe para se manifestar e responder perguntas. 

Nenhum jogador, seja quem for, tem obrigação de falar com jornalistas (exceção feita aos casos, muito mais frequentes em ambientes esportivos avançados, como nos EUA, em que contratos determinam essa obrigatoriedade. Mas o ponto aqui é outro).

Há diversos exemplos de futebolistas elogiados por estar sempre disponíveis, e que são mal vistos por companheiros exatamente pela proximidade com “a imprensa”. O problema é a maneira como se portam  publicamente, por vezes se eximindo quando as coisas vão mal, por outras se valorizando quando vão bem. 

Da mesma forma, há jogadores pouco afeitos a interações com jornalistas que são companheiros exemplares e líderes positivos em suas equipes. 

Tudo depende de como enxergam os contatos que envolvem questionamentos, críticas, elogios. Como desejam que seus pontos de vista sejam conhecidos. E como entendem a responsabilidade de discutir suas atuações profissionais. 

Jornalistas que cobriram a trajetória de Zico na Seleção Brasileira lembram das gravações em fita cassete que ele fazia, entre sessões de fisioterapia para o joelho, para informar como andava sua recuperação. As declarações eram reproduzidas para os repórteres, que as utilizavam em suas matérias. Era a maneira que Zico encontrava para que o público soubesse de sua evolução, sem que tivesse de interromper o tratamento para ser entrevistado.

Anos oitenta, um mundo muito distante. Hoje, um post em qualquer mídia social conecta jogadores a seu público – ênfase no “seu” – sem intermediários. 

E sem perguntas, especialmente as que não são fáceis de responder. 

O que deveria determinar a percepção pública de um jogador é uma palavra da língua inglesa para a qual, infelizmente, o português não oferece uma tradução exata: accountability. 

Trata-se de um senso de “responsabilidade com ética”, a noção de “prestação de contas” (no melhor sentido), mas com um aspecto fundamental ligado à consistência com a qual esse futebolista se dispõe a ser entrevistado.

Ou seja: aqueles que acham necessário, importante ou conveniente falar com jornalistas, deveriam fazê-lo com regularidade. 

Aqueles que não acham, deveriam não fazê-lo com regularidade.

Assim se estabelece um perfil e as relações se tornam mais verdadeiras. 

Um exemplo clássico: Carles Puyol não gostava de dar entrevistas. Tinha o costume de passar pela zona mista, após vitórias, empates e derrotas, cumprimentando a todos e sem falar formalmente com ninguém. 

Na noite em que marcou o gol que classificou a seleção espanhola para a final da Copa do Mundo de 2010, provavelmente o momento mais importante de sua carreira, fez o mesmo.

Jamais se questionou o comprometimento de Puyol, um modelo de liderança como jogador.



  • Ailton Souza

    Caro AK

    Os exemplos de Zico e Puyol, não se encaixam no endeusado Neymar, que desde a época dos Santos quando tudo ia bem ele aparecia, quando ia mal ele sumia. Muitos comentaristas esportivos acharam que a saída do Dunga resolveria todos os males da seleção.
    O problema da Seleção é coletivo, não se ver um trabalho tático, o time é muito individualista e o nosso “craque” é individualista demais e os nossos treinadores estão refens desse individualismo.

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