No LANCE! de hoje 



UM ABRAÇO

Não havia muitas pessoas no Ginásio da Paz e Amizade, naquele domingo há quase doze anos. A final do torneio olímpico masculino de vôlei dos Jogos de Atenas tinha sido, no aspecto competitivo, uma formalidade. Um curto diálogo entre o melhor time do mundo e seu desafiante receoso. Por três sets a um, o Brasil basicamente disse à seleção italiana que voltasse à quadra quando estivesse pronta.

Um par de horas após a cerimônia de premiação, voluntários gregos limpavam o local, jornalistas encerravam seus trabalhos, alguns jogadores celebravam com suas mulheres, filhos, pais. Embora silencioso e quase vazio, o ginásio ainda vibrava com a energia das grandes conquistas esportivas. Como se fosse possível sentir novamente a explosão do último ponto, ver os jogadores subindo pelas cadeiras para encontrar pessoas queridas, ouvir os sons da comemoração dos brasileiros.

Giovane estava na quadra, no que parecia ser um momento de contemplação do que tinha acabado de experimentar. Não era a primeira vez. O veterano do mágico título em Barcelona 1992 – como protagonista de um time que revolucionou o esporte – saboreava a segunda medalha de ouro de sua carreira, após uma participação limitada na campanha na Grécia. Ele olhou para o alto, onde ficavam as posições de narração das emissoras de televisão. Um ex-companheiro gesticulou que desceria para encontrá-lo. Era Tande, trabalhando como comentarista da TV Globo.

O abraço que uniu os dois campeões olímpicos foi o abraço mais forte, mais longo, mais bonito e mais emocionante que alguém pode imaginar. Começou com palavras das quais eles talvez não se lembrem mais, mas logo foi derrotado pelas emoções de ambos, pois o coração sempre vencerá o cérebro quando levados ao limite. Dizer que eles choravam nem começa a descrever a cena; Giovane e Tande soluçavam em uma convulsão que lhes fazia tremer, e se abraçavam mais, incapazes de processar os sentimentos que os controlavam.

Atletas desse nível aprendem a conviver com enormes quantidades de dor. A parte física, por mais debilitante, é a menos complicada. O sofrimento que resulta dos sacrifícios que acompanham as carreiras de sucesso no esporte causa ferimentos profundos. Como seres humanos, até os mais vencedores perdem muito mais do que ganham. Naquele abraço de êxtase e exaustão, dois esportistas consagrados dividiam o alívio que precede a felicidade e o orgulho. Dois homens experientes choravam as pressões, as lesões, os dramas pessoais, a saudade. Um tinha exata noção do que o outro sentia, do que o outro queria dizer mas não conseguia.

Finalmente, soltaram-se. Rostos avermelhados, olhos encharcados, almas agradecidas. Giovane retirou a medalha que carregava em seu pescoço e a colocou em Tande, que beijou o objeto dourado e o devolveu. E se abraçaram de novo, dessa vez de maneira controlada. Na era dos telefones inteligentes, a cena teria registros de todos os ângulos e estaria em todos os vídeos que pretendessem tratar do significado da glória esportiva. Naquele canto de um ginásio ateniense, em 2004, foi um privilégio de quem viu.

Os Jogos Olímpicos pertencem aos atletas.

PELÉ

Pelé era o nome, o atleta e o símbolo perfeitos para acender a pira de uma Olimpíada no Brasil. O maior esportista nascido no país, fato indiscutível e que está acima de qualquer restrição que pudesse existir – e não existe, de acordo com o COI – a quem não disputou os Jogos. A própria pira, se pudesse, escolheria Pelé. Custa entender a ausência por causa do problema no quadril, uma circunstância solucionável com esforço e criatividade de todas as partes. Pelé não deveria ter desperdiçado a oportunidade de tamanha honra.

(publicada em 6/8/2016, no LANCE!) 

 

 



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