No LANCE! de hoje 



A FAMÍLIA OLÍMPICA

No mesmo dia em que atletas de todo o mundo começaram a habitar a Vila Olímpica da Rio 2016 (exceção feita aos australianos, que encontraram seus aposentos em obras, um cenário distante dos quartos cinco estrelas que esperam os membros da sociedade dos anéis), o Comitê Olímpico Internacional causou danos sem precedentes ao esporte. A decisão covarde sobre o banimento da delegação russa da Olimpíada, em efeito, é uma licença para programas governamentais de dopagem e a conversão oficial dos Jogos do Rio de Janeiro em um evento de ficção. Não haverá motivo para acreditar em nada.

Esta é uma era em que a expressão “comitê de crise” é associada a episódios muito mais importantes do que atletas incentivados a trapacear para competir. Mas não se deve subestimar a pressão que o COI teve de enfrentar nos últimos dias: contemplar a exclusão de uma superpotência do esporte, às portas de uma edição dos Jogos Olímpicos. Nesse tipo de situação, é impossível tomar decisões indolores ou que contentem a todas as partes. É obrigatório, no entanto, escolher o caminho que proteja o que é mais importante, e que tenha maiores possibilidades de evitar a repetição do problema, enviando a todos a mensagem correta. O COI conseguiu fazer o oposto.

De fato, fez pior. Furtando-se ao papel de liderança que justifica sua existência, o comitê saiu da sala e foi ensaboar as mãos. Decidiu que não decidiria. A Rússia, cujo esquema estatal de dopagem de atletas foi exposto por testemunhas, revelado por jornalistas e investigado pela Associação Mundial Antidoping (WADA), poderá enviar esportistas – exceto os das modalidades de atletismo, já excluídos da Olimpíada – para competir sob sua bandeira no Rio de Janeiro, desde que eles provem que estão limpos e recebam a autorização de suas federações internacionais.

Os atletas russos que desejarem disputar os Jogos têm doze dias para resolver essa questão. Mas nenhum deles com uma suspensão por doping no currículo será aceito, mesmo que já tenha cumprido a pena. O cinismo do Comitê Olímpico chegou a esse ponto: uma simulação de punição dura a russos comprovadamente dopados, como se só houvesse atletas – e técnicos, e dirigentes, e políticos – trapaceiros na Rússia. A medida atinge diretamente Yuliya Stepanova, corredora de 800 metros que denunciou o programa de doping de seu país. Stepanova foi punida por dois anos, em 2013, e viria ao Rio como atleta neutra, mas o COI declarou que ela não cumpre os “requisitos éticos” para participar da Olimpíada.

O tratamento dado a Stepanova talvez seja o segundo maior equívoco da decisão do comitê comandado pelo alemão Thomas Bach. Ao abandonar uma atleta que teve a coragem de falar, o COI aterroriza todos os esportistas que poderiam assumir a mesma postura, e mais uma vez falha gravemente ao ignorar sua missão: defender os direitos do atleta que não se dopa. O banimento de toda a delegação russa da Rio 2016 mandaria um recado claro aos demais países que preparam quimicamente seus atletas, e a proteção a quem denunciou as irregularidades seria uma maneira de utilizar esse episódio como estímulo para novas investigações. É vergonhosamente ingênuo imaginar que não existem outros programas governamentais de dopagem.

O que é mais alarmante: a WADA é cúmplice do COI neste desastre de proporções olímpicas. Os rumores sobre o escândalo no esporte russo começaram há seis anos, e foram revelados a partir de 2013 por meios de comunicação alemães, britânicos e americanos. O relatório da WADA divulgado na semana passada, mencionando a falsificação de resultados de exames antidoping durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, na cidade russa de Sochi, é um constrangimento para a agência, que parabenizou publicamente o comitê russo pelos esforços contra o doping no evento. Não haveria tanta sujeira acumulada se a WADA tivesse agido no momento apropriado.

(publicada em 25/7/2016, no LANCE!)

 
 



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