No LANCE! de hoje 



RENÚNCIAS

A assinatura de Tite no manifesto #OcupaCBF, organizado pelo Bom Senso FC em dezembro do ano passado, tem sido utilizada como argumento para criticar a decisão do ex-técnico do Corinthians de aceitar ser o substituto de Dunga. Ao assumir a Seleção Brasileira, Tite teria colocado sua carreira acima de seus princípios, em um caso clássico de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Observação semelhante foi feita em relação a Rogério Ceni, também um signatário do pedido de renúncia do Marco Polo que não viaja, que concordou em trabalhar como auxiliar da comissão técnica do Brasil durante a Copa América do centenário.

Sobre Tite, ainda, lamentou-se o desperdício da oportunidade de realmente colaborar para a transformação do futebol brasileiro, pela possível repercussão de uma recusa ao convite da CBF. O gesto poderia estimular os “poderes constituídos” a precipitar a queda de Del Nero, seria a gota d’água para o fim de uma gestão contaminada por denúncias de corrupção. É possível. Ou, o que é muito mais provável, outro técnico seria contratado e o presidente da CBF seguiria se equilibrando entre o medo de entrar em um elevador – imagine se a porta não abre – e os conchavos políticos que ainda o sustentam.

A relação dos jogadores brasileiros que disputarão o torneio olímpico de futebol proporciona uma nova fase neste debate. Fernando Prass, um dos três futebolistas acima de 23 anos chamados por Rogério Micale, também pediu a renúncia de Del Nero em dezembro de 2015. O goleiro do Palmeiras é um dos membros do BSFC e uma das cabeças mais arejadas de sua categoria. Prass não foi criticado por aceitar a convocação para a Olimpíada, e nem merece. O que ele merece é a chance de jogar pelo Brasil aos 38 anos de idade, pela primeira vez. Para jogadores e treinadores de futebol, com exceções raras, existe uma grande diferença entre a CBF e a Seleção.

A Seleção permite o alcance de um objetivo profissional e pessoal. Para muitos, uma conquista em si. A confederação impõe o relacionamento com cartolas de diferentes perfis, assim como se dá nos clubes, onde a convivência é bem mais próxima e frequente. Na função de técnico do Corinthians, Tite trabalhou com Alberto Dualib, com Andrés Sanchez, com Kia Joorabchian… ao avaliar os prós e contras da oportunidade de suceder Dunga, Del Nero certamente fazia parte da lista de contras. Os prós venceram.

Quando se manifestaram publicamente no pedido de saída de Del Nero da presidência da CBF, Tite e Prass assumiram o risco de ver as portas da Seleção Brasileira se fecharem. Aí está a importância das posições que assumiram, e elas não devem ser confundidas com uma renúncia a defender a Seleção. No caso do convite ao técnico, em especial, é notável a falta de constrangimento do cartola, disposto a recorrer a quem o considera danoso ao futebol. Claro, a hipocrisia de Del Nero não surpreende a ninguém, mas, como se ainda fosse necessário, este é mais um motivo pelo qual o Marco Polo que não viaja precisa ser retirado de onde está.

DERROTA

Um casamento insólito: a genialidade dos clássicos só com torcida do mandante se encontrou com o fetiche autoritário da arbitragem. O resultado foi um dos cartões amarelos mais ignorantes deste Campeonato Brasileiro. Após converter um pênalti que ele mesmo sofreu, o são-paulino Christian Cueva comemorou levando a mão à orelha, fazendo o famoso gesto “não estou ouvindo…” para a torcida do Corinthians. O árbitro Péricles Bassols o advertiu como se ele tivesse mostrado as partes íntimas para o público rival. Como só havia corintianos em Itaquera, teria sido oportuno explicar aos jogadores visitantes quais eram as comemorações permitidas: um sorriso contido ou um abraço bem rápido, para não provocar. É possível que os pais da torcida única, especializados em transportar sofás, já estejam pensando nisso.

(publicada em 18/7/2016, no LANCE!)



  • Alisson Sbrana

    Muito bom ler esse texto sobre o Tite.

    Particularmente eu nunca fui muito fã do técnico (agora da seleção) até outro dia porque me incomodava um time que jogava um grande futebol até fazer o primeiro gol. Talvez seja injusta essa marca, mas lembro de assistir a jogos do Corinthians e ficar pensando que “se aquele time era o melhor que tínhamos…”. Bom, pelo menos eu era acompanhado por boa parte da crítica que gosto de ler, no que se referia as vitórias magras. E embora o mundo não gire a minha volta, Tite mostrou no último título brasileiro que “se incomodava com a minha crítica” (muitas aspas aí na soberba!). Enfim, como santista comum, pouco me lixo para uma grande defesa se não temos um ataque fantástico. E mesmo não sendo um fã do gaúcho de Itaquera, reconhecia nele a maior capacidade entre os treinadores atuais de trabalhar bem com um time para torná-lo vencedor. A evolução do Tite contrastava estratosfericamente com a involução da seleção. Que incrível, não? Lembro quando, pós 7 x 1, anunciaram o Dunga e fiquei com aquela sensação de “esperando alguém gritar primeiro de abril”. (Lembro de sua coluna sobre o assunto). E eu, não sendo jogador nem técnico, sou aquele torcedor que se encaixa entre os que não enxergam seleção como CBF. Ou não enxergava, pois outro dia me peguei na surdina comemorando um gol do Peru…

    Então repito, é bom ler esse texto sobre o Tite, pois vejo nesse nobre espaço um pedaço de resistência a essa praga de cartolagem brasileira (e sul-americana). E acho que a maioria dos críticos aos cartolas torcem muito pela seleção brasileira, como torcem pela melhoria do futebol brasileiro (e de todo o resto nesse país de golpes desde o desvio das rotas das caravelas).

    Ah, e o comentário da nota DERROTA é brilhante. Desculpe o comentário grande.

  • Adriano

    Especializados em transportar sofás, hahahahaha. Bravo!!

  • Vicente Alves

    Saudações. Ligas independentes como fator de formação de técnicos esportivos. As deficiências de formação e retenção de craques no futebol brasileiro são conhecidas. E como formar e manter bons técnicos no esporte brasileiro ? Os clubes esportivos requerem resultados imediatos, o que resulta em contratações e rescisões tão rápidas quanto àquelas arrancadas do fenômeno. Como reciclar e aperfeiçoar os conhecimentos dos profissionais ? As ligas independentes esportivas poderiam facilitar contatos entre o meio acadêmico e profissionais do esporte. Enriqueceria o espetáculo esportivo brasileiro. O que acha Tite ? O que acha Bernardinho ? O que acha Lars Grael ?

  • Vicente Alves

    Saudações. Atualização em Julho de 2016, da Pauta de Reinvindicações, sugerida por este torcedor. 1. Alteração do estatuto das Confederações e Federações Esportivas para , desde já, permitir a facilitação de livre criação de chapas para a concorrência a presidência por eleições periódicas, permitindo e aumentando o poder de votos para atletas, e clubes da série A, B, C, D . 2. Mais democracia nas séries A, B, C , D, do brasileirão, prevendo ascensão e descensão, até aos cinco primeiros e últimos de cada série , aumentando o valor econômico das séries B, C, D, induzindo mais patrocínios e interesses da mídia nacional e internacional 3. Calendário de jogos o ano inteiro para clubes médios e menores, com campeonatos regionais de séries C e D do brasileiro, evitando altos custos, aumentando o interesse regional pelos campeonatos, viabilizando mais patrocínios. Cada série C e D, poderia ter, pelo menos , três campeonatos regionais.

  • Vicente Alves

    7. Apoio, pelas Confederações e Federações, da criação das ligas independentes de clubes, com proteção a “NAMING RIGHTS” , de : segundo nome de clubes, nome de ligas, arenas, estádios, centros de treinamento e assemelhados, obrigando a divulgação dos “NAMING RIGHTS” em narrações de partidas ou eventos esportivos, induzindo investimentos privados nacionais e internacionais na gestão destes ativos , alterando-se o artigo 42 da Lei Pelé, 9.615/98. 8. Debate entre clubes esportivos, atletas, e outros envolvidos, sobre a criação de lei que possibilite aos clubes , a emissão de títulos para o mercado de capitais, com lastro nos contratos desportivos dos atletas , a partir dos 16 anos. Pela modificação do artigo 29, parágrafo 4.o da Lei Pele, permitindo que os clubes optem, por parte dos recursos captados em Bolsa de Valores, pelo pagamento de auxílio financeiro, a partir dos 14 anos, ao jovem aprendiz atleta, induzindo investimentos em CTs.

  • Vicente Alves

    9. Alteração na Lei 10.891/2004, da Bolsa Atleta, prevendo convênio com faculdades e outras instituições de ensino, remunerando técnicos e profissionais correlatos, incentivando a criação de Centros de Treinamento, nas respectivas instalações. Exigência , por lei , de cadastro único de atletas, e com disponibilidade pública, atraindo potenciais investidores, para os fundos de investimento , em mercado de capitais, de títulos lastreados em contratos desportivos. 10. Criação das loterias esportivas digitais, como importante fator de fomento às modalidades, incentivando a criação de ativos digitais aos clubes, bem como plataformas digitais de relacionamentos, de clubes e patrocinadores.

  • Vicente Alves

    11. Eleição de treinador da seleção e não apenas nomeação. 12. Gestão digital dos campeonatos, facilitando o acesso popular , pela internet , ao torcedores, dos jogos dos clubes, induzindo a criação de ativos digitais e plataformas de relacionamentos dos clubes e patrocinadores. Criação de legislações metropolitanas para gerenciamento de conteúdo de mídia digital, para apoio a fidelização do torcedor com a modalidade esportiva, como por exemplo, locais públicos ou de concessão pública, terminais urbanos, repartições públicas, outros. 13. Criação de uma Agência Nacional do Esporte , fiscalizadora de licitações, contratos negócios, gestões de clubes, federações e confederações esportivas, evitando desvios de conduta e monopólios.

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