Coluna Dominical 



O QUE ESPERAM?

A final da Copa Libertadores da América foi definida no meio da semana, e, entre os temas mais discutidos após as partidas, pouco se falou de futebol. Entenda-se por “futebol” o jogo em si, os aspectos que conectam as pessoas a ele, as virtudes e defeitos que ajudam a explicar e compreender resultados. Não, esses assuntos não interessam. Prefere-se, como se fosse uma tarefa compulsória, tratar dos equívocos do apito – algo sempre tentador quando o objeto da conversa é um torneio organizado pela Conmebol, a entidade esportiva mais corrupta de que se tem notícia – e lendas urbanas infantis que já deveriam ter sido esquecidas, como “peso de camisa” e semelhantes tolices.

Em meio à esquizofrenia que pautou a “análise” da eliminação do São Paulo, notou-se a presença dominante da indignação seletiva, essa praga que se assemelha às superbactérias resistentes até mesmo aos antibióticos mais potentes. A onda de ofendidos subitamente se esqueceu do pênalti (de Maicon em Carlos), escandaloso, ignorado pela arbitragem no primeiro tempo do jogo de volta contra o Atlético Mineiro, nas quartas de final. E a conotação incendiária da repercussão foi várias vezes superior ao que se viu em 2013, quando Carlos Amarilla lesou o Corinthians a favor do Boca Juniors, em uma atuação cuja suspeita de má intenção se justifica pela gravação de uma conversa entre Don Julio Grondona e o então representante argentino na comissão de arbitragem da Conmebol.

É estranho que se opte pela gritaria momentânea ou por ideias de movimentos rebeldes que jamais se sustentarão, enquanto as medidas que realmente podem solucionar os problemas ficam à margem. O que os clubes – especialmente os brasileiros – deveriam fazer em relação à Conmebol é exigir a implantação de arbitragem eletrônica na Copa Libertadores. Já existe um pacote aprovado pela Fifa, que prevê a interferência do árbitro de vídeo nos lances de gols, pênaltis e expulsões. No caso do confronto entre São Paulo e Atlético Nacional, todos os momentos que suscitaram discussões sobre as decisões em campo seriam revisados pelo replay. Um árbitro analisaria a expulsão de Maicon e o pênalti não marcado em Hudson, à luz da regra do jogo, com vários ângulos de imagem para formar sua opinião.

O mais curioso em relação a quem é contra o apito eletrônico é o privilégio da posição. No sofá, com o auxílio dos replays, julga-se quais foram as decisões “suspeitas” de árbitros que devem apitar apenas com os olhos. Os defensores do “fluxo do jogo” também não percebem que a revisão de lances torna mais difícil a operação de apitadores determinados a beneficiar um lado. É uma camada de proteção ao resultado. Em vez de estimular a modernização do apito, louva-se o estilo mais tolerante da arbitragem europeia, principalmente a inglesa, sem notar que talvez tenha sido exatamente essa a causa da lesão de Cristiano Ronaldo na final da Euro 2016. O que os clubes estão esperando? A coleção de presidentes presos prova que não falta dinheiro na Conmebol. O que falta é a utilização de recursos da maneira certa.
 
TRABALHOS

A primeira decisão da Libertadores sem um time brasileiro ou argentino em 25 anos não representa, necessariamente, o fim de uma era. Mas é um sinal de que projetos concebidos em outros países geraram equipes melhores. O Atlético Nacional é claramente superior a todos.

CARPETE VELHO

Os gramados do Mineirão e do Mané Garrincha, sedes do torneio olímpico de futebol dos Jogos do Rio de Janeiro, estão em condições inaceitáveis. A imagem que será apresentada ao exterior durante a Olimpíada evidentemente será negativa, mas não é mais grave do que o impacto no Campeonato Brasileiro. Tanta conversa lançada aos ventos sobre “o produto futebol”, e em dois estádios com pouco mais de dois anos de uso, a superfície entregue aos jogadores é a pior possível. 

(publicada em 16/7/2016, no LANCE!)



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