No LANCE! de hoje 



DOIS CHOROS E UM TROFÉU

Pode-se não gostar da imagem que Cristiano Ronaldo transmite para a audiência que acompanha futebol e não o conhece pessoalmente. Não se pode permitir que essa percepção – e não passa disso, tão somente uma percepção – comprometa a apreciação de suas qualidades como jogador: um dos melhores atacantes em todos os tempos, provavelmente o melhor finalizador de sua geração, certamente o melhor cabeceador que o jogo viu em décadas. A celebridade de Cristiano se alimenta de seu futebol, não o contário.

Também não se pode subestimar a dor, não apenas física, que o astro português sentiu ao se ver obrigado a deixar o jogo mais importante de sua carreira na seleção, antes que a decisão da Euro 2016 completasse meia hora. Levado ao limite das lágrimas, consolado por uma mariposa que pousou em seu rosto, a imagem de Ronaldo sentado no gramado, convencido de que seguir em campo seria impossível, ilustrou uma enorme injustiça. Um drama para ele, a maior das perdas para Portugal, um anticlímax compatível com a final de um torneio sem brilho.

O choque com Payet, no oitavo minuto, não pareceu carregado de intenção maldosa por parte do jogador francês. Payet atingiu Ronaldo com sua perna direita, de apoio, enquanto a esquerda tocou a bola. Joelho com joelho, o que configuraria um ataque suicida, se proposital. Para azar de Cristiano, a perna esquerda sustentava o peso de seu corpo, e a carga do impacto fez com que joelho e pé se movessem em sentidos opostos. A imagem em movimento é feia, mas menos assustadora do que a foto. Força excessiva, sem dúvida, punível com cartão amarelo.

O Stade de France realmente não é um local acolhedor para Ronaldos, embora Ronaldinho Gaúcho, campeão europeu ali com o Barcelona em 2006, possa discordar. Mas diferentemente do problema que aconteceu com o fenômeno brasileiro horas antes da final da Copa do Mundo de 1998, o que se deu com Cristiano foi um lance de jogo que merece uma reflexão. Mark Clattenburg representa a arbitragem inglesa, reconhecidamente tolerante com um nível de contato não permitido em outros centros. Os jogadores sabem disso e provavelmente se sentem autorizados a fazer como Payet. Clattenburg não marcou falta.

Curioso que a saída precoce de Ronaldo tenha, a princípio, prejudicado a França. Condicionado por Didier Deschamps a se defender antes de tudo, o time francês pareceu concluir que a vitória estava escrita, e deixou até de pressionar. Sem seu melhor jogador e principal esperança de uma surpresa em Paris, Portugal se encontrou em situação familiar: o time do qual se espera menos, enfraquecido por uma lesão devastadora, fora de casa, diante de um adversário muito mais qualificado no aspecto individual. O futebol também é uma questão de coração e coragem. A seleção portuguesa teve ambos em grande dosagem.

E coube ao primeiro gol pela seleção de Éder, um jogador fadado a ser espectador da decisão, decretar a primeira vitória de Portugal sobre a França desde 1973; devolver aos portugueses o que a Grécia lhes tomou em Lisboa, em 2004; e dar a Cristiano Ronaldo o troféu que ele imaginou inatingível quando seu joelho esquerdo o impediu de continuar. Ronaldo chorou quando sua noite terminou mais cedo, e permanecia chorando quando a noite da seleção portuguesa terminou em festa.

REFORMA

A diretoria do São Paulo agiu corretamente ao romper com os torcedores profissionais que barbarizaram o Morumbi na noite da última quarta-feira. Os relatos, especialmente das mulheres que foram vítimas de abusos por parte de delinquentes, são enojantes. Agora é preciso ter firmeza para sustentar a posição e estabelecer um ambiente diferente no estádio, também com uma política de preços que permita que os espaços sejam devolvidos ao torcedor comum.

MÓVEIS

Enquanto isso, os defensores da torcida única continuam transportando sofás. Agora a culpa é da cerveja vendida fora do estádio.

(publicada em 11/7/no LANCE!)



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