Coluna Dominical 



ATAS

A urgência para estabelecer conclusões duradouras a partir de noventa minutos de futebol segue irresistível. Houve partidas que representaram o início e o fim de momentos marcantes na extraordinária viagem da bola, eventos encontrados em qualquer pesquisa sobre os estilos, os avanços táticos e os times que alteraram a maneira como enxergamos este jogo. A idade do consumo instantâneo, infelizmente, trouxe a estranha necessidade de converter cada encontro importante – e eles acontecem com enorme frequência – em uma ata para a posteridade, como se o futebol entrasse em recesso. Futilidade.

Tomemos dois jogos de grande repercussão nesta semana, para tentar descobrir qual deles é a mensagem do oráculo, a mais pura expressão da verdade futebolística que devemos seguir até… a próxima mensagem. Um deles foi o jogo de ida das semifinais da Copa Libertadores, entre São Paulo e Atlético Nacional. O outro, a semifinal da Euro 2016, França x Alemanha. Distâncias técnicas à parte, ambos mostraram confrontos semelhantes entre o time que controla e o time que ameaça, e ambos chegaram a resultados totalmente opostos.

No Morumbi, o Nacional custou um pouco a moldar o jogo à sua maneira, com superioridade técnica e imposição coletiva. O ímpeto do São Paulo chegou ao goleiro Armani um par de vezes, antes da cadência colombiana determinar o compasso e evidenciar qual time tinha ideias mais claras e melhor execução. Quando Maicon foi corretamente expulso (a regra é específica quanto a esse tipo de situação), as diferenças entre as equipes se ampliaram e o placar foi construído de maneira natural.

A jogada do primeiro gol é um manual de movimento construído desde trás, estrelado pelo passe profundo – com o corpo virado para o lado, para enganar, e eliminando três defensores – de Macnelly Torres, disparando o efeito dominó que fez Rodrigo Caio soltar Borja quando o mesmo Torres recebeu a bola de volta. Seis passes aparentemente despretensiosos foram trocados antes da sequência final, associações curtas que prepararam o salto de linhas. A calma antes da tempestade. Futebol de posse em sua melhor versão.

Não foi o que a Alemanha fez no Velodrome, embora seja um time capaz de praticar um jogo ainda mais refinado. Com laterais quase colados às linhas e em posições profundas, formando uma linha de cinco atacantes, os campeões do mundo trancaram a França em seu próprio campo e moveram a bola com extrema precisão na maior parte do tempo. Não houve, porém, o passe que desestrutura defesas e gera vantagem (entre outras razões, porque é quase impossível criar espaço quando se está tão próximo da linha de fundo). Os alemães também não possuem um atacante perito em se desmarcar, como Suárez ou Vardy, ou um astro capaz de reescrever partidas. E quando a bola aérea funcionou, Lloris prevaleceu.

A França foi uma competente intérprete do jogo reativo, defendendo-se com alto nível de concentração e se valendo da qualidade individual de Pogba, Payet e, obviamente, Griezmann, para levar perigo à área de Neuer. O momento transformador do jogo foi o pênalti cometido por Schweinsteiger, uma dessas casualidades das quais dependem os planejamentos essencialmente defensivos como o dos franceses. O segundo gol foi fruto de outra: bola perdida dentro da área pela defesa alemã, seguida de falha de um dos melhores goleiros do mundo.

Dois jogos de futebol com finais diferentes, explicados não pelas ideias que se enfrentaram, mas pela maneira como foram aplicadas. Dois jogos que se encerram naquilo que ofereceram, sem que deles se deva extrair teses sobre os caminhos do futebol para os próximos tempos. Muito menos a infantilidade que ressurge vez por outra, de que aquele que passa mais e chuta mais está mais próximo da derrota. A oportunidade de vencer estará sempre relacionada ao bom funcionamento coletivo. Como o do Atlético Nacional e como o da Alemanha.

(publicada em 9/7/2016, no LANCE!)



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