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AS LIÇÕES DE CONTE

A tradição indicava que o desempenho da seleção italiana em grandes competições era inversamente proporcional à expectativa. As Copas de 1982 e 2006 são os principais exemplos de grupos que deixaram o país sem crédito e retornaram com o prêmio máximo. Quando se trata de futebol na Itália, a tradição é um patrimônio quase sagrado: a camisa, o hino, o orgulho… entidades com as quais não se mexe. Até que surge alguém capaz de lidar com elas à sua própria maneira.

Antonio Conte conseguiu um feito. A derrota da Itália nas quartas de final da Euro 2016 elevou a posição da seleção na percepção externa, reforçando os laços entre o público e os jogadores que o representam. No processo, o técnico que comandará o Chelsea negou duas verdades aparentes do futebol de hoje. Treinadores são, sim, muito importantes; e não é necessário possuir craques consagrados para jogar bem o futebol, nem mesmo no nível mais alto.

Vitórias sobre a Bélgica e a Espanha fizeram os italianos acreditarem, mesmo que por um momento passageiro, em mais uma conquista de uma seleção criticada e tratada como mero participante. A eliminação, nos pênaltis, para a Alemanha, confirmou a imagem de superação de uma equipe que era mais do que a soma de suas peças, que não só mereceu o respeito de quem torceu por ela como gerou apreço comparável aos times que entraram para a história como vencedores. A Itália de Conte é uma perdedora adorável.

Um objetivo difícil, especialmente em uma época marcada pela relação cínica entre torcedores de futebol e suas seleções nacionais. Ninguém se importa, até que a repercussão das derrotas revela o tamanho do engajamento. No caso da Itália de 2016, o sofrimento dos jogadores por não continuarem reunidos é semelhante ao da torcida por não poder mais vê-los, um exemplo da força aglutinadora das grandes decepções. Conte converteu sua seleção em um clube não apenas nos aspectos internos de ambiente e entrosamento, mas também no caráter representativo de uma base de torcedores.

Bastaria lembrar que um meio de campo formado por jogadores como Sturaro, Parolo e Giacherini foi capaz de conter a Alemanha, campeã mundial. Ou como as lágrimas do veteraníssimo Buffon desafiaram a noção de que astros não se comprometem com a seleção. A Itália apresentou aos adversários uma defesa com cinco homens praticamente intransponível, que, com a bola, passava a uma linha de três zagueiros plenamente capaz de iniciar movimentos com o campo aberto pelos jogadores laterais.

Não, não era a Holanda de 74. Digamos que era um pacote básico de jogo posicional e elaboração, mais do que suficiente para surpreender oponentes que imaginavam enfrentar um time essencialmente defensivo. O trabalho de Conte também demonstrou que selecionar os jogadores que funcionam melhor, juntos, pode ser mais producente do que escolher os melhores jogadores de cada setor. Além do desempenho coletivo, essa orientação colabora para a instalação da mentalidade de time dentro de uma seleção.
 
DEGRAU

Importante resultado do Corinthians diante do Flamego. Resultado, não necessariamente atuação. Em casa, o time de Cristóvão Borges jogava menos do que o visitante até Romero fazer 1 x 0, evento que transformou radicalmente o encontro. O Flamengo perdeu organização e controle, equívoco que equipes inteligentes não costumam perdoar quando estão em vantagem. Foi o que o Corinthians fez ao explorar o espaço e aumentar a diferença de gols até os 4 x 0 em Itaquera. A goleada não traduziu a distância de jogo entre os dois times, mas foi indicativa da capacidade de concentração do Corinthians. O time que fraquejou em situações semelhantes, desta vez, soube se impor após o gol inicial. Passo à frente no trabalho de Cristóvão, que poderá usar a vitória deste domingo como um degrau para a subida de desempenho que o Corinthians precisa fazer.

(publicada em 4/7/2016, no LANCE!)
 
 



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