COLUNA DOMINICAL



O PACIENTE INGLÊS

Os jogadores da seleção ficaram hospedados em quartos que custam 650 dólares (R$ 2.106,00, na cotação de ontem) por noite, em um hotel cujo restaurante é avaliado pelo Guia Michelin com duas estrelas. Mesmo assim, houve reclamações sobre os edredons: poderiam ser mais acolchoados. Além do time e a comissão técnica, o hotel estava fechado para qualquer outro funcionário da federação. Estes também não podiam fazer refeições junto com os jogadores, por uma ordem do técnico.

A ideia de diversão dos atletas foi se revezar para carregar um leão de pelúcia que tinha sua própria credencial. O mimo foi visto agarrado às costas de diversos deles quando subiam ao gramado, antes de iniciar o aquecimento para as partidas. Todas as vezes em que foram questionados sobre o bichinho, a resposta foi rigorosamente a mesma; tinha sido uma ideia “dos jogadores veteranos”.

Nas entrevistas coletivas, era proibido falar sobre qualquer assunto relacionado a clubes ou até mesmo aos adversários da seleção. Alguns atletas designados para os encontros com repórteres receberam frases inteiras da assessoria de imprensa, sobre como responder a determinadas perguntas. Soube-se que os jogadores organizaram uma competição de dardos na sala de recreação do hotel, mas o tema também foi vetado.

Os campos de treinamento pareciam prisões, cercados por grades altas e protegidos por equipes da polícia e até por drones. Era notável que os jogadores preferiam estar em outro lugar, sensação que pode ajudar a compreender por que a maioria deles têm históricos de desempenho muito superior nos clubes em relação à seleção. Após a derrota para a menor nação participante do torneio, ficou claro que certas decisões do técnico não foram compreendidas ou bem aceitas. Entre elas, a determinação de que o melhor atacante do time deveria cobrar escanteios e faltas próximas à área.

Os detalhes que você acabou de ler constam de um artigo publicado nesta semana pelo jornal britânico The Guardian, e se referem à seleção inglesa, espetacularmente eliminada da Eurocopa pela Islândia. A última frustração da Inglaterra em torneios importantes gerou uma onda de indignação estimulada pelos tablóides, segundo os quais a humilhação na França se deveu a uma espécie de “fracasso moral”. Os jogadores são muito ricos, muito alienados, muito suaves…

Agora a FA (Football Association, a CBF inglesa) se imerge na procura pelo substituto do técnico Roy Hodgson, a quem remunera com um salário anual de 5 milhões de libras, valor 56% superior ao que os alemães pagam a Joachim Low, técnico campeão do mundo. A pessoa encarregada de liderar o processo é Martin Glenn, executivo-chefe da FA, que, entrevistado sobre o assunto, disse duas vezes não ser um “especialista em futebol”. Ele prometeu ouvir as opiniões de jogadores, ex-jogadores e técnicos para encontrar “a melhor pessoa para o trabalho”.

A peça do The Guardian descreve a Inglaterra como “um país que gosta de pensar sobre si mesmo como a realeza do futebol”. Artigos como esse, se fossem lidos por membros da cartolagem brasileira, reforçariam a tese de que o mundo do futebol não tem nada a nos ensinar, e sim a aprender. E é verdade. Eis uma lição valiosa: como manter na presidência de sua federação nacional um cartola indiciado pelo FBI.

MISTER

Roy Hodgson estabeleceu um novo patamar quando se trata da incapacidade de encontrar um time dentro de um grupo de jogadores talentosos. Um forte competidor neste quesito é Marc Wilmots, técnico da Bélgica, amplamente superada por País de Gales no jogo de ontem, apesar da marcante diferença de potencial. O anfitrião Didier Deschamps se arrisca de forma semelhante, tamanha sua vontade de fazer a França praticar futebol medroso. Independentemente do que acontecer hoje, em Alemanha x Itália, Antonio Conte tem dado aulas nesta Eurocopa.

(publicada em 2/7/2016, no LANCE!)

 
 



  • Pablo

    André
    Não entendo porque valorizam tanto a seleção inglesa…. Obvio, o campeonato mais rico ajuda
    Mas se analisarmos a seleção, ela é bem mediana… Tem um bom goleiro e um ou outro bom jogador, fora que a fase do Rooney não é boa há umas duas tenporadas….
    Chegou longe até de fase essa seleção….

    • André Kfouri

      Em termos de talento reunido, era a melhor seleção inglesa em muito tempo. Um abraço.

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