No LANCE! de hoje 



DESOLAÇÃO ILUSTRADA

A ideia de fazer os elencos de Santos e São Paulo chegarem ao Pacaembu no mesmo ônibus é dessas iniciativas que nos confortam. Ver Dorival Júnior e Edgardo Bauza, sorridentes, sentados lado a lado no primeiro banco, nos remete à utopia do futebol sem violência. No instante seguinte, a realidade nos relembra que tais exercícios imaginários pertencem ao campo da filosofia.

A proposta do “clássico da paz”, com público formado por torcedores dos dois times, não resistiu aos costumes do futebol em São Paulo. As autoridades do estado proibiram clássicos com cores diferentes até o final do ano. Submetidos à aprovação da Polícia Militar, sugestões como essa não passam de manifestações infantis, perda de tempo para quem não se preocupa com o que o futebol deve ser.

O problema é no que o futebol se transformou, reflexo direto de um mundo enlouquecido. Jorge Valdano, ex-futebolista argentino e observador sensível do jogo e de seus arredores, descreveu o quadro magistralmente em sua coluna no diário mexicano Récord, ao comentar o que se passa na Euro 2016:

“Os nacionalismos sempre me pareceram uma religião menor, mas, pelo jeito, podem ser excitados de uma forma doentia por uma simples partida. Ou o futebol tem muita força ou o nacionalismo é pouca coisa. O certo é que a identidade europeia, que parecia coerente com a expansão das mentes que a globalização propõe, não consegue se ajustar. Este campeonato nos manda sinais de certa regressão à nossa língua, nosso território e, sobretudo, à nossa bandeira. Jogadores que cantam o hino como se uma batalha em que defenderão o território os esperasse; torcedores com pinturas de guerra chorando por um triunfo ou uma derrota; idiotas emocionais brigando como energúmenos nas ruas da França, como se os problemas de verdade não existissem. A que se deve esse regresso ao primário? Sem dúvida, ao fato de que toda essa gente não consegue ver a Europa como uma unidade sentimental. Tampouco como um instrumento político que os retire de suas frustrações cotidianas. Tudo isso nos devolve ao futebol, esse território emocional onde todas as nossas frustrações encontram refúgio”.

Sim, o raciocínio de Valdano tem os europeus como origem, mas o caráter tribal que ele menciona é facilmente encontrado em estádios de futebol ao redor do mundo, onde impera o “nós x eles”. E não é apenas uma questão de confrontos de torcidas rivais, mas de um modo de enxergar tudo o que diz respeito ao jogo. A divisão e o conflito se sobrepõem.

Desde um acidente com torcedores feridos à beira do campo, socorridos apenas por jogadores do próprio time, a um jovem zagueiro chorando por uma falha, consolado por jogadores adversários. Enquanto o primeiro exemplo passa despercebido, o segundo nos chama a atenção, justamente por não estarmos habituados a simples demonstrações de humanidade no futebol.

David Trueba, escritor e cineasta espanhol, recentemente escreveu no El País: “O panorama é desolador. Nunca foi tão desprestigiado estudar, nem tão prestigiado ser imbecil”. O futebol ilustra a desolação, tão bem quanto qualquer outro aspecto da vida cotidiana.

DESEQUILÍBRIO

Uma faceta da torcida única que ainda não recebeu a devida consideração: é um fato estatisticamente comprovado que a vantagem do mandante no futebol está relacionada ao comportamento da arbitragem. Mais do que o desempenho do time da casa, o decantado “apoio da torcida” influencia as decisões dos árbitros. É uma característica humana, inconsciente: querer estar em conformidade com a maioria. Um estádio em que só há presença de torcedores de um time permite que os árbitros se sintam absolutamente à vontade para desagradar o outro. É uma medida que aumenta o desequilíbrio. Até agora, em São Paulo, os números são indiscutíveis: quatro vitórias do mandante e um empate. Claro, quem decidiu pela torcida única não se interessa por isso.

(publicada em 27/6/2016, no LANCE!)



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