Messi e a estAFA 



Não é difícil notar a carga emocional na declaração de Lionel Messi sobre abandonar a seleção argentina. Mais uma frustração na final da Copa América do centenário, desta vez com pênalti desperdiçado, o levou a um visível estado de depressão. 

Quando alguém diz “isso não é para mim”, está, de fato, sendo escuso. É quase uma admissão de que existem objetivos inalcançáveis e que sua presença compromete os sonhos dos outros. Tente aplicar isso a Messi e qualquer time de futebol do qual ele faça parte. É simplesmente insano. 

Tentar responsabilizar um jogador específico por uma derrota em um esporte feito para ser praticado coletivamente é infantil. É uma proposta tão fútil quanto dizer que “Maradona ganhou a Copa de 86”, ou que existem “jogadores de clube e jogadores de seleção”. Mitologia. 

Do ponto de vista futebolístico, essas são tentativas de aplicar a cultura de ignorância de arquibancada à análise de desempenho. Campos distantes. Essas tolices podem sobreviver nas redes antissociais ou nos programas midiáticos que não pretendem ser levados a sério. No mundo real, felizmente, não têm valor algum. 

O que a seleção argentina precisa descobrir é por que, na decisão de um torneio em que exibiu um jogo associado até então inédito, voltou a insistir no “bola para Messi e que Deus nos ajude”. Esse é um mistério maior do que a dúvida sobre a sequência do melhor jogador do mundo em seu time nacional. 

A anunciada renúncia de Messi à seleção também tem forte conotação política. Está relacionada ao caos na AFA, uma organização que consegue ser pior do que a CBF. O futebol argentino está, há tempos, afundado na incompetência e na corrupção. O sentimento dos jogadores se reflete no anúncio de Messi, posição na qual ele está acompanhando por Mascherano e Aguero. Certamente não são os únicos, apenas os mais vocais. 

A crítica aberta que Messi publicou em seu perfil no Instagram, durante o atraso do voo da seleção argentina para New Jersey, é um exemplo de atitude coletiva. Quando alguém como ele adota esse tipo de postura, fala em nome de todos. 

Por que um jogador, seja qual for, deve carregar em seus ombros a culpa por uma decepção, enquanto os culpados por derrotas mais graves seguem rindo em seus escritórios confortáveis?

Um dos grandes fracassos da AFA reside na nacionalidade dos responsáveis pela transformação da seleção chilena. 

Bielsa revolucionou os métodos de treinamento e instituiu noções de jogo coletivo. Sampaoli aprimorou o trabalho de seu mentor, fortalecendo a mentalidade dos jogadores no caminho para o primeiro título da seleção, no ano passado. Pizzi, apesar de um início reticente, dirigiu um time confiante e vencedor nos jogos que comemoraram o centenário da Conmebol nos Estados Unidos. 

Os três são argentinos. Como Messi. 

Pensar na Argentina sem seu melhor jogador leva a sensações de desperdício e desgosto. Quando a tristeza não estiver mais estampada em seu rosto – Aguero disse que nunca viu Messi tão devastado como no vestiário do MetLife Stadium – e disseminada por suas palavras, Messi pode reconsiderar seus planos e ajudar a levar a Argentina à Copa da Rússia. Este, sim, deve ser seu torneio definitivo pela seleção. 

Ou talvez a estafa o tenha consumido. Neste caso, aqueles que não sabem apreciá-lo têm motivos para estar muito mais preocupados do que com uma final perdida. 



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