No LANCE! de hoje



DE VOLTA A 2010

O futebol seria muito mais simples se a montagem de boas equipes fosse um processo meramente organizacional, uma questão de distribuir peças em um tabuleiro e lhes dar vida ao acionar um botão. Haveria mais profissionais capazes de pensar e fazer o jogo, e mais gente em condições de compreendê-lo. Felizmente não é assim. O caráter orgânico do desenvolvimento de conjuntos é o que determina a hierarquia do esporte e a valorização daqueles que sabem lidar com tamanha complexidade.

À exceção de um período de três meses durante o segundo semestre de 2010, o Corinthians teve apenas dois técnicos nas últimas oito temporadas: Mano Menezes e Tite. A correlação entre a estabilidade no comando do time e os resultados alcançados desde 2008 é lógica, embora seja incomum no futebol brasileiro. O momento atual, de interrupção do trabalho de um treinador justamente por seu sucesso, é idêntico ao que se apresentou há seis anos, quando Mano aceitou o convite para dirigir a Seleção Brasileira. Foi aí que a experiência com Adílson Batista não deu certo.

Não fosse um caso de antipatia pessoal do presidente Roberto de Andrade, a sequência gaúcha Mano-Tite-Mano poderia acumular mais uma temporada, garantindo a manutenção do modo de trabalhar que prevalece – com óbvias diferenças de personalidade e os respectivos ajustes – desde o ano em que o Corinthians venceu a Série B. Mas uma medida para restringir a presença de diretores no ambiente do time, tomada por Mano em 2008, é a razão do veto do atual presidente, que à época ocupava um cargo administrativo. (Necessário dizer que Mano provavelmente também não trabalharia com Roberto de Andrade, por entender que a relação entre o presidente e o técnico deve ser de confiança mútua.)

De modo que Cristóvão Borges é o Adílson Batista de 2016. Não no sentido de que fracassará, algo que ninguém pode afirmar. Mas como a representação de um novo perfil em uma estrutura que não está habituada a grandes transformações. Roger Machado, uma espécie de Tite 2.0, manteria o Corinthians no curso habitual. Sylvinho, beneficiário de excelentes influências dentro e fora do Brasil, seria um investimento no futuro. Os demais treinadores brasileiros – exceto Dorival Júnior – já chegariam sob a ameaça do tipo de desconfiança capaz de corroer trabalhos promissores. Entre uma aposta midiática arriscada e um retrocesso com um nome em decadência, o Corinthians fez a escolha mais discreta disponível.

Cristóvão Borges é um técnico trabalhador e estudioso, que ainda não mostrou o repertório necessário para animar quem teve o privilégio de torcer por Tite. Fato: substituir o maior técnico da história do Corinthians seria um dilema para qualquer profissional, mas Borges carrega a imagem de um treinador sem o devido currículo. O que impõe ao clube a obrigação de lhe dar o máximo suporte; ao torcedor, a sabedoria de ter paciência; e a ele próprio, a inteligência para lidar com todos os aspectos da missão mais difícil de sua carreira.

7 x 0

A goleada do Chile sobre o México foi a maior destruição futebolística de que se tem notícia desde o epitáfio do Mineirão. Do início ao fim do encontro na Copa América do centenário, tivemos a impressão de que os chilenos praticavam outro esporte, em um choque de eras semelhante ao que a Alemanha apresentou ao Brasil na Copa de 2014. Com uma diferença que aumenta a dificuldade para compreender o que aconteceu: até o jogo de sábado, a seleção mexicana era um time atualizado, e o Chile parecia ter retrocedido em relação ao período sob o comando de Jorge Sampaoli. O futebol e suas intermináveis lições.

INATINGÍVEL

Andrés Iniesta torna as comparações inúteis e as análises, desnecessárias. Quando alguém quiser explicar a uma criança o que é o futebol, basta exibir um vídeo com suas atuações. Mas será preciso fazer a ressalva de que é impossível jogar tão bem quanto ele.

(publicada em 20/6/2016, no LANCE!)



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