Sobre “bobinhos” e culturas



O repórter Isaac Lluch (Twitter: @isaac_lluch) cobriu o período de Pep Guardiola no Bayern para o diário catalão ARA.

Já reproduzimos aqui sua conversa com Manel Estiarte, braço direito do técnico.

Abaixo, a tradução da entrevista de Lluch com Domènec Torrent, assistente de Guardiola.

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Domènec Torrent: “A variação tática é o principal legado que Pep deixa na Alemanha”.

Quando Domènec Torrent sai de um de seus restaurantes favoritos em Munique, a dona começa a chorar. Guardiola e sua comissão técnica deixarão muitos amigos na Baviera. O ex-auxiliar técnico do Bayern se move pelo centro da capital bávara com a naturalidade de quem por três anos se sentiu em casa. Torrent conta como viveu a transformação do campeão alemão na era Guardiola e como ele evoluiu como técnico.

Lembra-se como foi o primeiro rondo [“roda de bobinho”, no jargão futebolístico brasileiro] que vocês introduziram no Bayern?

Na primeira sessão de treinamento no Allianz Arena, diante de 20 mil pessoas, fizemos alguns rondos e alguns jogos de posição que são muito típico de Pep. No Bayern, entendiam os rondos como algo lúdico, mas, para Pep, eles têm uma importância fundamental e assim logo os fizemos entender. Há muita diferença sobre como os jogadores os percebiam antes e agora. Aqui podemos ver a essência da contribuição de Guardiola no Bayern.

Que diferenças?

Para eles era algo para começar ou terminar o aquecimento. Era quase só por diversão: a bola poderia sair dez metros do círculo, enquanto não tocava o chão. Era outra maneira de compreendê-lo. Mas desde o primeiro dia Pep lhes disse que dava muita importância à forma como eles se colocavam, como recebiam bola, se o controle estava bom com a perna direita ou esquerda. Já era um exercício técnico e tático, já fazia parte do treinamento. Pep tinha claro que muitas coisas são melhoradas com os rondos. Os jogadores imediatamente compreenderam. Um dia tivemos a curiosidade de comparar os rondos do primeiro treinamento, quando custava a eles praticá-lo, com os do segundo ano. Não tinha nada a ver. A bola voava ao final, os jogadores se desafiavam com qualidade. E passavam muito bem.

Você pode dizer que o jogo de posição no campeão alemão ainda usava fraldas?

Nunca tinham feito. Desconheciam o sentido dos jogos de posição. Para Pep, para a escola do Barça, é um hábito, mas na Alemanha pensavam a princípio que era um jogo para manter a posse da bola. Mas era um jogo de posição, para você saber como se posicionar quando tem a bola, onde estão os espaços livres e onde você deve pressionar quando não tem a bola. Era um exercício meramente tático com seu componente físico. Lorenzo Buenaventura [preparador físico] media as pulsações e estavam muito altas. É um exercício muito completo em que Pep acredita muito para dar velocidade e sentido ao jogo. Depois de um ou dois meses, ele os fez entender que não se tratava apenas de preservar a bola, mas de como se devia jogar.

Demorou para entenderem a ideia?

Entenderam rapidamente. Philipp Lahm adorava e se um dia não fazíamos no treinamento, ele pedia. E o goleiro Manu Neuer sempre queria estar nos exercícios de posição porque melhorava muito o jogo com os pés. Até nos dias de recuperação, em que não precisava treinar, ele perguntava se ele podia participar. Os jogadores viram que o jogo de posição os beneficiava, que em campo tudo era mais fácil e que havia sentido no que faziam.

Como foi o processo de convencer os jogadores?

Os jogadores se convenceram rapidamente. Outra coisa é a ideia que podia aparecer na mídia local. Os futebolistas sempre foram muito abertos às ideias Pep e imediatamente as incorporaram. É uma maneira de entender o futebol que Cruyff fomentou e tomara que perdure no Barça. Há outras pessoas que preferem um futebol mais direto, mas no Barça e no Bayern o jogo de posição deu frutos. Os jogadores alemães ficavam parados diante da intensidade do trabalho. Além de um esforço físico brutal, o que eles praticavam era a essência do futebol: perda de bola, pressão, recuperação, voltar a se abrir e querer a bola.

Que nuances tiveram de introduzir por causa do perfil dos jogadores que tinham?

Talvez aqui tenha havido mais intensidade após a perda da bola, porque eles são jogadores físicos e rápidos na recuperação. O jogo de posição lhes foi muito útil, porque não só serve quando você tem a bola, mas quando você a perde. A questão não é pressionar por pressionar, mas saber em que zonas precisamos ir, que buracos temos de tampar. Com Pep, com uma defesa 40 metros adiantada, o Bayern bateu o recorde de menor número de gols sofridos [17 gols] na Bundesliga e o jogo de posição tem muito a ver com isso.

As equipes de Guardiola sempre são ofensivas, mas dá a impressão de que ele dá a mesma importância para a defesa.

Pep se protege com a bola. Durante os quatro anos no Barça, seu time foi o que sofreu menos gols. E a mesma coisa aconteceu durante os três anos na Bundesliga. E ninguém pode dizer que tivemos os melhores defensores, porque nesta temporada batemos o recorde de menor número de gols sofridos jogando 80% do tempo sem centrais natos. Pep inventou Kimmich, Alaba e até Rafinha jogando como centrais. Sua ideia defensiva funciona. É curioso que ninguém tenha pensado que em sete anos de carreira na elite suas equipes sempre foram as que sofreram menos gols.

Qual foi a chave para encontrar uma identidade conjunta na equipe?

Quando você chega, conhece as qualidades reais dos jogadores. A princípio, você imagina que este ou aquele jogador pode fazer algo, mas, em seguida, você percebe que ele não pode. E você vê qualidades que não enxergava à distância. Por exemplo: Lahm chegou a ser nosso Xavi por sua inteligência, pausa e controle. Guardiola colocou as melhores qualidades dos jogadores a serviço da equipe. Sem trair a sua ideia de domínio do jogo, evoluiu muito: ele colocou os laterais por dentro, três jogadores que trocavam de posição pelos lados e a equipe foi capaz de mudar três vezes de sistema em um jogo, sem que se notasse. Nós não tivemos Messi, Iniesta, Xavi ou Busquets, mas em três anos o Bayern não perdeu a porcentagem de posse para nenhum rival. No Barça, Guardiola teve grandes jogadores. Ele inventou falso 9, os dois extremos que atacavam o espaço, mas mudou o sistema apenas uma vez, quando Cesc [Fàbregas] chegou para se juntar à qualidade de todos. No Bayern, por sua vez, jogamos com tudo: 5-3-2, 3-4-3, 4-2-3-1, 4-3-3, 4-4-2 com diamante, 4-4-2 em linha … Agora, quando um rival apresenta a defesa de três, quatro ou cinco, Pep já tem em sua cabeça como agir. Ele tem sido muito flexível. Nunca disse: “Como o meu nome é Pep Guardiola, só vou jogar dessa forma”.

Você acha que o principal legado que Guardiola deixa é a variação tática?

Eu acho que sim. Os principais beneficiários de sua riqueza tática são os jogadores, que apreciaram a sensação de jogar com diferentes tons. O trabalho de Pep se espalhou entre colegas, talvez porque eles sofreram com as variações táticas quando enfrentaram o Bayern.

Em que outras equipes você acredita que Pep deixa a sua marca?

O treinador do Borussia Dortmund, Thomas Tuchel, se declarou admirador de Pep e fez sua equipe evoluir muito com base em um jogo de controle da bola. Tuchel acredita na ideia de Guardiola e a sente como sua. O Borussia Monchengladbach, com André Schubert, mostrou que queria jogar mais saindo de trás e não ser tão direto, assim como o Hoffenheim de Julian Nagelsmann. Vimos também que há umas dez equipes que marcam por zona as jogadas de estratégia do rival, quando antes eram duas ou três. Eles gostaram da idéia de Pep e viram que era eficaz. Também na seleção alemã se vê uma contribuição de Pep, mas isso só será valorizado com o tempo e a distância.

E de que forma você acredita que foram “alemanizados”?

Ao também jogar com transições muito mais rápidas. Pelo perfil, os jogadores do Bayern talvez não sejam tão brilhantes com a bola no pé como os do Barça, mas com espaço e velocidade, fazem muito mais danos. Ao valorizar essas qualidades, nós tentamos fazer transições rápidas. Se podemos fazer com três toques, é melhor do que com cinco.

E muitos jogadores se “Guardiolizaram”…

Pep viu em sete ou oito exercícios que Lahm poderia jogar no meio. Não perdia bolas e tinha pausa.

Foi possível  “guardiolizar” Thomas Müller, essência do Bayern?

Müller é um jogador diferente. Nos primeiros meses, quando me perguntavam quem ele me lembrava, eu dizia que era Julio Salinas, porque era um jogador alto e magro, que fazia gols, que aparecia por aqui e por ali. Müller é um jogador que certamente será o artilheiro da história das Copas do Mundo. Ele mesmo admite que evoluiu, que compreendeu muito mais coisas do jogo. Não corre tanto para todas as posições, está mais quieto porque sabe que receberá a bola. E essa é uma contribuição de Pep.

Contribuição contracultural.

A contracultura teve mais a ver com a imprensa ou os torcedores, porque os jogadores logo acompanharam Pep. Depois de três anos, eles comentaram que nunca tiveram a sensação de dominar tanto a Bundesliga. Até mesmo no ano do triplete, quando muitas vezes chegavam igualados [com o adversário] aos últimos minutos e tiravam forças de dentro para resolver o jogo a seu favor.

Faltou alguma coisa a fazer?

Foi a primeira experiência longe de casa e nós adaptamos. Nos servirá.

E a Liga dos Campeões?

Faltou chegar à final. Eu acho que neste ano a Champions foi injusta conosco, embora o Atlético [de Madrid, vice-campeão] deva pensar o mesmo. Nem contra o Madrid e e nem contra o Barça, nos anos anteriores, nós merecemos passar, mas neste ano sim. Mas noto que as pessoas nos agradecem muito por esses anos fantásticos. Nos despedimos com bem estar.

E agora a Premier League.

Acho que a mensagem quando Pep chega aoutras ligas é errada. Dizem que ele vai mudar o estilo e não é assim. Pep traz novas idéias e se adapta ao futebol de cada país. Eu diria que a ideia de Pep não é mudar nada, mas acrescentar sua maneira de entender o futebol, que não é melhor ou pior, é diferente.



  • Mark Faviere

    Parabéns e obrigado pela tradução.

  • Fábio Ribeiro

    Aula de futebol

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