“Compliance”?!



Em ambientes esportivos em que existe ao menos a intenção de fazer as coisas do jeito certo, e as relações entre entidades são regulamentadas, questões éticas são mais claras e problemas são solucionados conforme o que foi estabelecido por todos.

As ligas americanas, mais uma vez, ensinam como proceder na região pantanosa do relacionamento profissional e respeitoso entre competidores.

Quando uma franquia na NFL, por exemplo, tem interesse em conversar com um profissional que está sob contrato, ela deve solicitar autorização à organização em que este profissional trabalha. A autorização pode ou não ser concedida, o que depende de circunstâncias como o desejo do funcionário em questão, sua relação com seus chefes e seu estágio de carreira. Quando o contato pode significar uma promoção, a situação é vista como uma oportunidade natural, algo que faz a a fila andar.

Sem autorização, é proibido conversar. Com autorização, as partes geralmente têm uma janela de tempo para chegar a um acordo.

O futebol brasileiro está muito longe desse tipo de cenário. A razão principal é a inexistência de uma liga de clubes. Quando se fala em liga, se pensa primeiro em uma associação, depois em uma competição, mas há muito mais. A criação de um organismo formado pelos clubes é condição para o estabelecimento de parâmetros de relacionamento com os quais todos estejam de acordo. Quem pode fazer o quê, como e quando. O executivo responsável pela gestão da liga tem a atribuição de agir quando esses parâmetros são desrespeitados.

Enquanto esse organismo não existir, cada um agirá como achar que deve. A falta de um ambiente institucional fora de campo, em que os clubes são parceiros e defendem os mesmos interesses, faz com que noções equivocadas de rivalidade prevaleçam na maior parte do tempo. A natureza da relação pessoal entre dirigentes determina o nível de cortesia aplicado. E de malandragem.

No caso da saída de Tite do Corinthians para a Seleção Brasileira, a situação, diferente, era muito mais simples. A CBF não é concorrente dos clubes e a Seleção, em tese, é um objetivo profissional dos técnicos mais capazes. Bastaria um telefonema comunicando o Corinthians de que Tite era o alvo. Genuína ou não, a manifestação do presidente Roberto de Andrade foi produto da inabilidade da CBF, o que não surpreende.

Não existe ética no futebol, a exemplo de todos os outros setores de atividade. O que existe são pessoas que se conduzem conforme a educação e os princípios que receberam. E se houvesse ética no futebol, o último lugar em que a encontraríamos seria a CBF de Marco Polo Del Nero, em que o diretor de “transparência e ética” é um carrega-malas de Eduardo Cunha. Uma entidade que paga salários a políticos do lobby do futebol em Brasília. 

Ontem à noite, uma figura como Walter Feldman teve a infeliz ideia de falar em “compliance da CBF”, termo do mundo corporativo que sugere normas, regulamentações e políticas. Tudo o que conseguiu foi desacreditar a palavra, que a partir de hoje será evitada, por constrangimento, em ambientes onde realmente é aplicada.



  • nilton

    Não sabia que o nível de organização da NFL chegava a este ponto.

    Com relação a “reclamação” do Roberto de Andrade é meia estranha se consideramos como o Tite se relaciona, dificilmente ele foi ao RJ sem avisa o presidente qual seria o motivo da viagem, e ao voltar sem falar “Sim” mostra que ele queria o OK do Roberto para fechar com a CBF (como o Murici fez em 2010 com o Flu se não estou enganado). A postura do Roberto foi mais para jogar para torcida do que de alguém foi pego de surpresa.

    Agora em um mundo aonde a ética é o mais importante realmente a CBF deveria te pelo menos comunicado para o Timão as intenções.

  • Ricardo Pradas

    dificil andré, pois uma liga nos moldes americanos teria a previsão de divisão equalitaria de dividendos dos direitos de transmissão e de orçamento em geral, teto de gastos, o que convemnhamos flamengo e corinthians nunca aceitariam, mesmo podendo ganhar mais com produtos licenciados pelo tamnho da torcida.

    • André Kfouri

      Uma coisa não tem a ver com outra. Uma liga é uma associação de clubes, que estabelecem suas regras na medida em que estão de acordo com elas. O exemplo citado menciona como são as normas das ligas americanas no que diz respeito ao assédio de funcionários. Isso não significa que os outros critérios também tenham de ser adotados. Um abraço.

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