Coluna Dominical



PRÁTICAS CONTINUADAS

O deputado federal Vicente Cândido (PT- SP), ex-sócio de Marco Polo Del Nero em um escritório de advocacia, admite ser funcionário da Confederação Brasileira de Futebol no Congresso Nacional. O salário pago pela CBF a Cândido é semelhante ao que ele recebe na Câmara, em torno de 33 mil reais. Em notável exercício de dobradura argumentativa para descrever de que forma faz jus à remuneração da entidade presidida por Del Nero, o deputado afirma que a CBF é promotora do futebol no Brasil, e que, ao representá-la, ele defende os interesses do esporte no Congresso. Ok.

Cândido também defende seu emprego no lobby do futebol em Brasília alegando que presta um serviço, o que está claro. A questão é se essa relação é compatível com a atividade parlamentar, cujos limites têm sido, digamos, desavergonhadamente expandidos pela classe política nacional. Apresentado aos evidentes conflitos decorrentes de sua polivalência, o deputado lança mão de uma velha carta: a CBF é uma entidade privada, ou seja, ninguém que esteja do lado de fora da ex-sede José Maria Marin tem algo a ver com esses assuntos. Além de habitarem um mundo à parte, não exatamente uma novidade, os políticos do esporte brasileiro também vivem no passado.

Há pouco mais de um ano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos triturou o argumento usado por Vicente Cândido e pelos apologistas das práticas de organizações esportivas corruptas. A Concacaf, ambiente das falcatruas que convidaram o FBI a se interessar pelo futebol, é uma entidade privada. A Conmebol, recordista em presidentes presos desde a operação no Baur Au Lac, também. A Fifa, investigada por autoridades americanas e suíças, também. Assim como a CBF. A tese do deputado serve apenas para desviar o foco de quem não presta atenção. Imagine como Marin, hóspede do governo dos EUA em seu próprio apartamento em Nova York, gostaria que Vicente Cândido tivesse razão.

Não se deve esperar, porém, que a CBF tome qualquer atitude. Ou mesmo se pronuncie. O departamento de transparência e ética da confederação – algo assim realmente existe, acredite – tem como diretor o deputado federal Marcelo Aro (PHS-MG), que até hoje não se posicionou sobre a fobia de voar que se apoderou de Marco Polo Del Nero. Minions que dão expediente no prédio da Barra da Tijuca querem que você acredite que Del Nero sobrevive no limbo jurídico dos “culpados-inocentes”, mas Aro é um especialista em silêncio. Talvez porque sua despedida da Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte, em janeiro de 2015, tenha sido marcada por uma homenagem a Eduardo Cunha. Ao entregar ao então candidato à presidência da Câmara o título de cidadão honorário da capital mineira, Aro o qualificou como “esperança de lutar por um país melhor”.

Tudo faz sentido. O recém-criado Código de Ética do Futebol Brasileiro, obra do Comitê de Reformas da CBF, não investigará o Marco Polo que não viaja. Ou Marin. Ou o Doutor Ricarrrrrrdo. De acordo com Caio Rocha, presidente do STJD e líder do grupo de trabalho que concebeu o código, a norma respeita limitações constitucionais e não tem espelho retrovisor. “O código olha para o futuro, salvo em práticas continuadas”, disse Rocha. Continuadas? A chapa que elegeu Del Nero se chamava “Continuidade Administrativa”.

EURO

Nenhuma seleção europeia reúne tanto talento quanto a Espanha. Os jogadores que ficaram fora da convocação para a Euro 2016, e que seriam titulares absolutos de suas seleções se tivessem nascido em outros países, dão a medida do potencial espanhol. Claro que isso não é garantia. A França também tem um time teoricamente esplêndido, mesmo sem Benzema, e está em casa. A Alemanha é a atual campeã do mundo. E a Inglaterra fez atuações muito animadoras na preparação para o torneio. No papel, ainda é preciso temer a Bélgica, mas com a bola rolando convém esperar. Que copa legal é a Euro. Tomara que tudo termine bem.

(publicada em 11/6/2016, no LANCE!)



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