No LANCE! de hoje



VINE

Começou com bons sinais, rápida circulação da bola e movimentos insinuantes. Terminou causando uma sensação difícil de catalogar, como um longo filme que dá voltas ao redor de um ponto sem jamais abordá-lo. Talvez o gol que Philippe Coutinho esteve perto de fazer, no início, tivesse encaminhado o jogo para uma vitória estimulante. Não saberemos. Ao final, o fato é que o Equador marcou um gol legítimo, revogado pela arbitragem. E a discussão sobre se a bola ultrapassou a linha – não ultrapassou – não apaga a falha de Alisson, apenas alivia sua repercussão.

Não havia remanescentes do 1 x 10 (não esqueça da Holanda…) em campo na estreia do Brasil na Copa América do centenário, mais uma forma de identificar um novo começo. Em relação ao primeiro jogo da Copa América do Chile, há um ano, só quatro jogadores – Daniel Alves, Filipe Luís, Elias e Willian – coincidiram. A Seleção Brasileira tem a continuidade de um vine. Não importa o quanto se deseja que a reprodução seja diferente, apertar play repetidas vezes não terá efeito, pois o conteúdo não suporta outro tipo de experiência.

O time que disputou o torneio do ano passado foi eliminado ao entregar a bola ao Paraguai. O que estreou neste ano tentou negá-la ao Equador. O futebol interrompido só não incomoda mais do que a dificuldade de aceitar o que a Seleção Brasileira é hoje, ou melhor, já há algum tempo: uma equipe como as outras do continente sul-americano, região do mundo em que as distâncias entre as seleções nacionais diminuíram e a classificação das Eliminatórias para a Copa de 2018 não é uma aberração passageira. Nela, o Brasil ocupa o sexto lugar, com a mesma pontuação do sétimo. Se for necessário desenhar: há mais times acima da Seleção do que abaixo.

O Equador é o segundo colocado, de modo que o zero a zero no Rose Bowl é um resultado que não apenas está de acordo com a realidade como, de fato, pode até ser avaliado com satisfação moderada. É “pouco para as tradições da Seleção Brasileira”? Sim, mas a própria Seleção Brasileira o é. Esse tipo de raciocínio alimenta o vine. A ladainha de que a-camisa-amarela-tem-de-vencer-sempre, um dos mantras da comissão técnica atual, é o que a impede de alcançar um estágio coletivo que lhe permita essa ambição. O ciclo de recomeços garante a repetição do discurso.

O problema que se apresenta é urgente: as Eliminatórias retornam no dia 2 de setembro, com uma visita ao mesmo Equador. O período da Copa América tem valor inestimável no aspecto da convivência diária, reclamação de todo técnico de seleção. De acordo com jornalistas competentes, que analisam futebol no sentido certo, Dunga tem feito um bom trabalho de campo nos treinamentos nos Estados Unidos. Apesar da falta de imaginação e objetividade na noite de sábado, o Brasil ao menos tentou se organizar a partir da posse e das associações curtas contra o time mais forte de seu grupo. O jogo contra o Haiti é uma ocasião sob medida para treinar competindo e dar um passo à frente no desenvolvimento coletivo.

O MAIOR

Trecho do obituário de Muhammad Ali na revista The New Yorker, por David Remnick: “Eles dizem, ‘Boa luta, garoto: você é um bom garoto; você vai bem.” Ali disse, em 1970. “Eles não acham que lutadores têm cérebros. Eles não acham que lutadores podem ser homens de negócios, ou humanos, ou inteligentes. Lutadores são apenas brutos para entreter os brancos ricos. Para bater um no outro, quebrar o nariz do outro, e sangrar, e se exibir como dois pequenos macacos para o público, matar um ao outro para o público. E metade do público é branca. Nós somos como dois escravos naquele ringue. Os senhores pegam dois de nós, grandes e velhos escravos, e nos deixam lutar enquanto apostam: ‘meu escravo pode espancar o seu.’ É isso que vejo quando vejo dois negros lutando.” (…) Que atleta moderno, muito menos alguém do nível de Ali, jamais falou com tanta complexidade política, ambiguidade, ou engajamento?

(publicada em 6/6/2016, no LANCE!)



  • Tiago Soares

    Estava esperando alguma publicação sobre a partida entre México e Uruguai para comentar algo que aparentemente passou despercebido pela crítica: a “trapaça tática” imposta por Juan Carlos Osorio. Ao entrar em campo, ele alinhou a equipe com uma formação 4-3-3 clássica e, com 30 segundos de jogo, os jogadores alteraram a formação do time para um 3-2-4-1. A mudança confundiu o time do Uruguai por alguns minutos e não duvido que seja mais uma das estratégias do “profe”.

  • Anna Barros

    Muhammad Ali é mito! Deixara saudades!!

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