Conversa rara



Nota do blog: Manel Estiarte é uma lenda do esporte olímpico e braço direito de Pep Guardiola. Assim como o técnico, ele não costuma dar entrevistas. Nesta conversa com Isaac Lluch, repórter do diário catalão ARA, temos uma amostra interna do trabalho de Guardiola em três temporadas no Bayern.

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A experiência ensinou Manel Estiarte a estar sempre em alerta ao lado de Pep Guardiola em um mundo midiático “de malucos”. Nos abrir sua casa em Munique diz muito sobre a “paz interior” com que se despede da etapa no Bayern. Estiarte não concede uma entrevista desde junho de 2014. A última também foi para o ARA. Aqui não fala como um porta-voz de Guardiola, mas como Manel Estiarte. O que não é pouco: ele é o único espanhol na lista dos 100 melhores atletas da história dos Jogos Olímpicos, elaborada pela [rede de televisão norte-americana] NBC.

De 1 a 10. Como era feliz em Munique?

Ufa! Você não pode fazer uma pontuação única. Há o tema esportivo, o social… mas no geral foi uma experiência muito positiva. Noto nestes últimos dias, em que sei que me vou. Estou muito acostumado com a palavra nostalgia, porque desde pequeno eu tinha que ir de Manresa [cidade em que nasceu] para Barcelona e só voltava para casa no domingo depois do jogo. E aos 22 anos fui para a Itália para jogar como profissional e estava feliz, mas também sentia nostalgia. Em Munique, eu não podia estar com a minha mulher, porque ela tinha de administrar sua empresa na Itália. E minhas filhas são grandes e já querem viver sozinhas. Eu sinto a nostalgia doce delas, mas sei viver de nostalgia positiva.

Por isso se sentiu bem em Munique.

Na Alemanha foi muito bem. Agora que eu estou indo me sinto querido e satisfeito. Eu diria que tenho uma sensação ainda maior de paz do que quando saí de Barcelona. Talvez porque Pep decidiu no último momento, talvez porque foi a primeira vez e pensávamos que a partir de então nos olhavam de uma maneira diferente, talvez porque deixávamos nossa casa. Se dizia e se lia coisas que não eram verdadeiras. Eu estava dentro e sabia que eram falsas. E te causavam um pouco de dano. Era a primeira vez. Agora é a segunda vez em que nos vamos. Não nos mandaram ir. Deixamos Munique com grande paz. Esportivamente tudo correu muito bem e fomos muito bem tratados. Claro, houve pequenas coisas. Se não houvesse, não seria real. Eu, que disputei seis Jogos Olímpicos, estive em mil vestiários, nunca me canso de repetir a Pep: “É um milagre que não tenha havido mais incêndios nos vestiários em que estivemos, tanto no Barcelona quanto no Bayern.”

Milagre ou sucesso?

É pela qualidade dos jogadores do Barça e do Bayern e pela bravura de Pep. Terminada a temporada, todos quiseram mostrar seu afeto. Quando chegamos de Marienplatz após a comemoração da Copa, fomos rapidamente ao vestiário da cidade esportiva do Bayern para uma última saudação aos jogadores. E te juro que é uma dessas coisas que você pensa que deveria ter gravado. Te procuram para te abraçar, de verdade. Todos os jogadores, um por um, à procura de Pep para dizer algo pessoal a seu ouvido. Todos, os que jogaram mais e os que jogaram menos.

Isto vale como títulos…

Eu sempre digo que Pep terá de carregar para sempre a palavra triplete. É como uma maldição não negativa. Antes de Pep coincidir com Messi, Puyol, Xavi, Iniesta, Busquets, Valdes… a palavra triplete não estava estabelecida no jargão jornalístico, porque nunca tinha acontecido em Barcelona. Pep sempre terá essa condenação. Leo [Messi], que tem que ganhar dez mundiais em um, também. E o Barça, por tudo o que conseguiu, também. Pediram um triplete a Pep em Munique, e vão pedir em Manchester.

Se o City estiver na Liga dos Campeões…

Dê tempo ao tempo. Os jornalistas falarão. Porque ao final de mil palavras, mil debates e mil histórias, todo o mundo gostaria de estar em nosso lugar. Todo o mundo gostaria de ser o Barça, Messi, o jogador da cantera que triunfa, Guardiola. E o que acontece? Como muitos não podem ser, criticam. Está bem: liberdade de expressão! Mas haverá sempre essa maldição positiva.

E isso é justo?

Você acha justo que exijam uma Copa do Mundo ou um triplete? Aqueles que dizem isso não sabem bem o significado da palavra maravilhosa que é esporte. Enquanto você, como esportista, está realmente treinando, preparando-se, visualizando o jogo, os outros também sonham em fazê-lo. Eu sempre digo que em Barcelona 92 perdi a melhor final da história, em casa. Eu sempre digo que ninguém treinou mais do que nós, porque foi uma loucura. Mas perdemos depois de seis prorrogações. No final, eu fico em paz, lembrando que os italianos treinaram igual. E venceram por um pelinho. Não importa. Então, quando você não vence o Atlético de Madrid após um grande jogo, em que perdeu um pênalti, aquilo não pode ser transformado em um “sim, mas…”. Às vezes você ganha, às vezes você perde. Mas o atleta é obrigado a estar lá, ser constante. E é isso que Pep tem. As provas são os vinte e um títulos em sete anos.

Há quem diga que perder nas semifinais da Champions é um fracasso.

Eu sempre odiei essa palavra no esporte. Para mim, o fracasso é o jogador que não treina bem, o treinador que se solta, a equipe que se abandona. Mas não aquele jogo perdido por um gol, por uma falha da arbitragem ou por um centímetro a mais ou a menos. Fracasso seria Pep perder todo o relacionamento com sua equipe, ou não administrar bem o dia a dia. As pessoas podem pensar que eu digo isso porque sou amigo de Guardiola. Repito: Pep não é perfeito, mas no que diz respeito ao profissionalismo, o conhecimento do futebol, atitude, generosidade e honestidade, ele está bem perto. É claro que ele tem suas coisas. Mas depois exigimos que ele ganhe tudo. Por quê? Bem-vinda maldição! Você diz que não acontecerá em Manchester? Acho estranho. Pep carrega isso. Mas somos privilegiados.

Ficou complicado, no Bayern, depois do triplete de Heynckes.

A história mostra que quando eles ganharam as Copas da Europa, no ano seguinte perderam ligas e tudo era um desastre. Na primeira semifinal da Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, falhamos; na segunda, o Barça estava no máximo nível, e, quando é assim, eles estão em outra órbita. E, mesmo assim, os únicos que puderam competir com eles fomos nós, mas estávamos com poucas forças. Neste ano, contra o Atlético, os detalhes não nos ajudaram.

Por outro lado, como explica tantos recordes na Bundesliga?

Eu participo de todas as reuniões táticas antes dos jogos. Há um fato curioso: em uma jornada qualquer de liga, em que você joga em casa contra o décimo ou décimo-primeiro, Pep também demonstra que tem muito respeito pela partida. Eu acho que essa maneira de abordar o jogo sabendo que a qualquer momento que você pode perder vem de Santpedor [cidade em que Guardiola nasceu]. Ele não transmite medo ao time, mas mostra imagens da qualidade do rival e avisa que os outros são bons.

E se os jogadores não acreditam?

Pep inventa outra coisa, se não com imagens, com seus gestos. Pep te transmite que se você realmente não fizer bem, cuidado, porque sofrerá dano. Ele tem a capacidade de fazê-lo a cada três dias, a cada três dias. Pam, pam, pam.

Viver com essa intensidade deve gerar desgaste…

Este é o outro lado da moeda. Isso me preocupa como amigo, mas não como profissional. As pessoas fariam de tudo para estar onde Pep está. Trabalhar tantas horas é o que ele tem que fazer, pelo que cobra, pelo que é, pela responsabilidade que tem, pela educação de seus pais, que lhe ensinaram que a vida é esforço. Me preocupa como amigo porque às vezes o vejo vazio, não pela quantidade de horas dedicadas a preparar um treinamento ou uma partida, mas pela mediocridade do entorno. Tão claro como isso. Nós já nos distanciamos do entorno, e não lhe damos a importância que muitos pensam que tem. Às vezes, até fazemos piada com nomes ou situações jornalísticas. Mas isso não impede que, hoje em dia, tudo chegue a você. É o de sempre: aceito que esse peso é parte da louca paixão pelo futebol. Mas não compro a mentira. Trata-se de má informação ou má fé. A primeira significa que você não é válido para este trabalho jornalístico; a segunda, que você não é uma boa pessoa.

Mentiras em Munique ou Barcelona?

É global. Mas vou dizer uma coisa: aguentamos que, em Madri, depois de um 2-6 ou um 5-0 ou três ligas vencidas, maus jornalistas ou más pessoas digam alguma mentira. Mas na sua casa? O que Pep fez no Barcelona? Trabalhar, fazer o melhor possível e tomar uma decisão pessoal de anunciar que era o momento de experimentar outras coisas. Às vezes me pergunto por que, no Barça, nos custa tanto deixar de lado o que pode incomodar as pessoas e apreciar as coisas boas. E já não falo de Pep, mas de Kubala, Cruyff, que descanse em paz, ou Ronaldinho…

Munique te desgastou menos do que Barcelona?

No Barça, ficamos um ano a mais. As últimas três semanas não foram fáceis em Barcelona, inclusive pela mentira de que Pep e Leo não estavam bem. Em Munique, a imprensa sabia desde dezembro que íamos embora e tudo foi mais dilatado. Também não foi fácil, mas, como em Barcelona, fico com a relação com os jogadores, que foi excelente. Fizemos tudo e algo mais para terminar bem. Em Munique, as pessoas nos querem, temos notado nas ruas.

Agora que fecham esta etapa, até que ponto se sentiram como quem sai de casa pela primeira vez?

Sim, essa foi a primeira aventura fora de casa. Nos equivocamos em algumas coisas, acertamos em outras. Nos servirá muito para a experiência em Manchester. Talvez nos primeiros meses tenhamos querido mostrar tudo o que somos: a nossa ideia, o fato de sermos catalães. Faltou pouco para que, nos jantares, disséssemos: “Experimente o pão com tomate, os ovos, nós misturamos com batatas”. Queríamos agregar, agregar e agregar e nos esquecemos um pouco de receber. Este é o aprendizado. Houve um momento em que vimos que tínhamos que encontrar um equilíbrio.

Tampouco quiseram implementar tudo.

Não! Mas isso te anima a pensar: “Vamos fazer isso, vamos aproveitar aquilo”. Não forçávamos nada. Perguntávamos a Lahm [o capitão] como ele via. Era a primeira vez que estávamos fora, e em nossa bagagem havia uma cultura nossa, de La Masia, de como somos. Aos poucos a experiência de vida vai te enriquecendo. Por isso imagino que Pep disse que agora é um treinador melhor: ele absorveu coisas da Alemanha.

Foi necessário encontrar o equilíbrio com os serviços médicos.

Falou-se disso muitas vezes, mas não foi tanta polêmica. Sim, havia uma maneira diferente de ver as coisas. Pep explicou que, para ele, os médicos tinham de estar no clube, diariamente, nos treinos, e não fora.

E o que você aprendeu na sua transformação profissional?

Eu sigo vivendo muito o esporte e fico mais nervoso do que quando jogava pólo aquático. Antes eu sentia os nervos antes do jogo, mas quando a bola rolava, tudo desaparecia completamente. Agora fico nervoso antes e durante o jogo. Mas, para mim, é um grande orgulho ter a confiança absoluta de Pep Guardiola. Me entusiasma estar nos treinamentos e nas reuniões. É maravilhoso estar no escritório de Pep na Allianz Arena depois de um jogo, e ver como ele já prepara o seguinte. Meia hora ali falando de futebol, ele vai para o quadro negro e as peças começam a se mexer. Eu acompanho tudo o que ele diz e compreendo, mas ele move as peças na velocidade de seu cérebro e às vezes eu tenho que dizer para ir com calma, pois seus movimentos com as mãos não acompanham o que ele diz. [risos]

Qual será o seu papel no City?

Lá, com Txiki Begiristain e Ferran Soriano terei mais responsabilidades. Mas não falarei sobre o projeto do City, Pep deve fazê-lo primeiro.

Você foi incluído na lista dos 100 melhores atletas na história dos Jogos Olímpicos. O que guarda daquilo?

[Longo silêncio] Eu não tenho nenhuma medalha em casa. As crianças que hoje jogam pólo aquático não sabem quem eu sou, é a lei da vida. Eu admirava meu irmão, depois Joan Jané [ex-jogador e técnico de pólo aquático espanhol]. Amo loucamente meu passado e o pólo aquático. Não lhe dou as costas. Me deu tudo, mas eu também lhe dei a última gota de suor. Eu tinha 6 anos, me jogaram em uma piscina e saí quando tinha 40! O que eu guardo daquilo? Amigos que, quando nos encontramos, rimos como se tivéssemos 15 anos. Eu tenho boas lembranças e muita tristeza por Jesus Rollán, [campeão olímpico pela Espanha no pólo aquático, falecido em 2006] que ele descanse em paz. Mas eu não posso viver no passado, não posso lembrar que era um bom jogador para voltar a me sentir vivo.

Nada de nostalgia pela velha glória?

Em um jornal muito importante, depois que tivemos uma discussão, talvez equivocadamente, para tentar convencê-los de que o melhor para o time era não fazer o que eles queriam que fizéssemos, retiraram uma foto minha do corredor da redação. Isso me machucou? Se eu fosse alguém que vive do passado, sim, mas não tenho nem o ouro olímpico em casa, então imagine. Eles podem retirar uma foto, mas não podem me tomar tudo o que vivi, todo o privilégio de ter competido, lutado, perdido e ganhado.



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